quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Retornando...

Faz muito tempo que não posto aqui!
Faz muito tempo que não consigo postar absolutamente nada aqui...

Eu poderia dizer que foi por causa da gravidez, do filho recém nascido ou dos mil afazeres que tenho diariamente. Mas, a verdade é que eu queria dar um tempo. Queria parar de pensar na falta imensa que o meu avô me faz. Queria parar de me vitimizar pela perda irreparável de alguém que é tão importante para mim. Eu queria parar de sofrer, de chorar, de me sentir assim tão só, tão órfã... Mas acho que não é evitando vir aqui no blog que vou conseguir mudar isso.

Esse ano fez sete anos que meu avô se foi. Sete anos é mais tempo do que convivo com algumas pessoas que amo, meu filho inclusive. Sete anos já era tempo suficiente para eu ter superado a morte dele. Mas eu ainda choro, ainda sofro, ainda me pego pensando o quanto ele poderia me aconselhar, me acarinhar e apoiar se ainda estivesse aqui... E isso é tão egoísta da minha parte que evito até pensar no quanto isso é mesquinho.

Ele me ensinou tantas coisas boas, sempre me incentivou a ser forte, corajosa, independente e batalhadora. O fato é que, depois que ele se foi, eu me tornei uma medrosa insegura, chorona e um bichinho acuado diante de algumas coisas. Parece que sem ele por perto, ao menos perto de um telefone, eu me tornei uma pessoa muito insegura. É claro, que o fato de eu ter passado mais da metade da minha vida vivendo longe da família, tem um peso grande sobre isso. E eu simplesmente não sei direito o que fazer para retomar o meu caminho: firme, forte, confiante e   mas eu quero muito retomar esse caminho.

Tenho tantas histórias dos meus "velhinhos" favoritos para dividir com vocês.
Eu vou voltar!

sábado, 11 de maio de 2013

Meu Avô & Meu Filho!

A vida é sempre surpreendente! E sempre dá um jeito de deixar as coisas de volta no lugar...

Quem já leu o meu livro "Meu Avô & Eu", sabe da relação linda que tive com o meu avô e o quanto eu sofri quando ele se foi em julho de 2007.

Desde então o dia 4 de abril - data que seria o aniversário dele - se tornou uma das datas mais tristes para mim. Eu simplesmente não podia mais ligar, para desejar um feliz aniversário, ou abraçar o meu amado avozinho. 


Foram cinco longos anos chorando muito de saudades nesse dia!

E como todos que acompanham esse blog também sabem, no final de agosto de 2012 descobri que estava grávida. Em dezembro soube que era um menino. Assim que soubemos o sexo do bebê, meu marido e eu decidimos que homenagearíamos o meu avô, dando o seu nome para ele.

Mas esse bebê, tão desejado e amado, também resolveu homenagear o bisavô dele. Ele resolveu nascer, adiantando duas semanas, exatamente no dia que seria aniversário dele: 4 de abril de 2013.
Tomás Domingos Mani Batista. É o mais novo bisnetinho do meu avô Domingos Mani.


Meu avô nasceu num sábado, 4 de abril de 1931 às 11:00, Tomás nasceu numa quinta feira, dia 4 de abril de 2013, às 10:30. Mesmo sendo um prematuro tardio, nasceu grande, pesando 3,3350g e 49 cm. Ele chegou trazendo de volta a minha alegria. Transformando a toda tristeza dessa data em um dos dias mais felizes da minha vida.

E ele é um bebê maravilhoso! É saudável, bonzinho e muito feliz... Tem os olhos castanhos, como os do meu avô, e me olha  de um jeito tão profundo, tão cheio de vida e amor - assim como o meu avô me olhava. Eu acredito que o fato dele ter nascido exatamente nesse dia foi um presente que a vida me deu. Nunca mais estarei triste nessa data.

Eu sinto tanto que o Tomás não irá conhecer uma das pessoas mais lindas que eu já convivi. Sinto tanto não poder mostrar o bisnetinho para ele e vê-lo olhando para o Tomás por um longo tempo, como ele fazia com todos os bebês da família. Eu sinto não poder vê-los caminhando juntos de mãos dadas... O meu avô e o meu filho, dois dos meus amores, meus dois Domingos, meus dois presentes de quatro de abril!


E a saudade continua...
E o amor permanece!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dona Eugênia

Conheci a dona Eugênia tem pouco tempo, mas já nos tornamos boas amigas.
Eu estava na sala de espera, no centro médico, para fazer um exame nos olhos.
Ela se sentou ao meu lado e, muito mais experiente, me falou como seriam todos os procedimentos.
Ficamos ali pelo menos uns quarenta minutos, enquanto a médica vinha, cada pouco, colocar colírio nos nossos olhos. Foi tempo suficiente para a dona Eugênia me contar do casamento maravilhoso, de quarenta anos, que ela teve com o seu amado holandês. 
Quando ela percebeu que estou grávida, me falou do bebê que ela perdeu ainda moça e que por causa de complicações da diabetes, nunca mais pode ter outro filho. Viúva, sem filhos ou família, vive há 8 anos sozinha. E sozinha ela estava para fazer um exame, onde era importante ter um acompanhante.
Em seguida fui chamada para fazer o exame e me despedi dela. Desci, encontrei o Diego, que me aguardava na recepção e quando já estávamos de saída da clínica a encontramos caminhando devagar, por causa das pupilas dilatas pelo exame. 
Apresentei-a ao Diego e ela fez a maior festa!
Disse que ele era lindo, que somos um casal lindo e que nosso bebê será lindo também.
Como ela estava indo para o mesmo lado que nós, dei-lhe meu braço e subimos a rua os três de braços dados. Diego ia conduzindo as duas ceguetinhas.
E dona Eugênia estava empolgadíssima, falamos mil assuntos enquanto subíamos a rua.
Depois de alguns quarteirões a deixamos na porta do restaurante da amiga dela.
Diego e eu fomos até o laboratório marcar um exame, depois almoçamos.
Quando fomos até o ponto de ônibus para voltarmos para casa... Lá estava ela novamente!
 - Olha só o meu casal preferido! É muita coincidência encontrar vocês assim duas vezes!
Conversamos mais um pouco, trocamos telefone e então nosso ônibus chegou.
Dias depois o telefone toca:
 - Oi minha princesinha é a Eugênia, que você e seu lindinho conheceram no centro médico, tá lembrada?
 - Oi dona Eugênia, claro que me lembro da senhora! Como está?
E nos falamos por horas...
Uns dias depois fui eu quem ligou. Depois ela ligou de novo.
Marcamos encontros, marcamos almoços, outras ligações...
E ficamos amigas... grandes amigas.
Ela sempre que vai à igreja ora pelo meu bebê, para que ele ou ela nasça com muita saúde.
Eu sempre penso nela e já combinamos que sempre que ela precisar de acompanhante para algum exame é para ela me ligar.
Ela é uma querida, disse que é minha avó substituta e que quando o bebê nascer vai dizer que é o bisnetinho dela.
Eu não sei o que acontece, qual a minha disposição ou se sou predestinada, mas sei que eu simplesmente amo pessoas idosas e há algo em mim que eles também amam.
Acho que é porque eu adoro ouvir suas histórias e eles adoram ter alguém para ouvi-los.
E eu estou muito, muito, muito agradecida por ter uma nova amiga.
A vida não é mesmo maravilhosa?
Amanhã vou me encontrar com ela, almoçaremos juntas, prometo postar uma foto nossa aqui.

domingo, 14 de outubro de 2012

E Se Vivêssemos Todos Juntos?

 Direção: Stéphane Robelin
Elenco:
Guy Bedos, Daniel Brühl, Geraldine Chaplin, Jane Fonda, Claude Rich, Pierre Richard, Bernard Malaka, Camino Texeira, Gwendoline Hamon, Shemss Audat, Gustave de Kervern, Laurent Klug
Nome Original:
Et si on Vivait tous Ensemble?
Duração:
96 minutos
Ano:
2011
País:
França/Alemanha
Gênero:
Comédia

Annie (Geraldine Chaplin), Jean (Guy Bedos), Claude (Claude Rich), Albert (Pierre Richard) e Jeanne (Jane Fonda) estão ligados por uma forte amizade que já dura mais de 40 anos.

Enquanto os dois primeiros e os dois últimos são casados, o do meio é um tremendo solteirão convicto, que não se cansa de aproveitar a vida. Quando a saúde deles começa a piorar e o asilo se apresenta como solução para um deles, surge a ideia de todos morarem juntos. Mas a novidade acaba trazendo a reboque algumas antigas experiências, que irão provocar novas consequências na vida de cada um.

Filme leve, gostoso... me fez pensar em Friends - o seriado - na terceira idade.



Trailler, aqui ó!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Meu ranzinza favorito!


Convivi pouco tempo com o Seu Irineu.
Um senhorzinho bemmmm ranzinza. 
Tem 85 anos, é um crítico ferrenho de tudo e todos, mas tem ótimas histórias para contar.
Seu Irineu é bem magrinho, adora assistir programas policiais, daqueles bem sensacionalistas, e conta que morreu e foi ressuscitado por uma das filhas dele.
É uma figura! Não gosta, de jeito nenhum, que as pessoas cheguem para comer na casa dele.
Não gosta de visitas e não gosta nada que as filhas saiam de casa.
Está sempre prevendo alguma tragédia caso elas teimem e saiam.
Segundo ele, elas podem ser sequestradas, roubadas, violentadas e até assassinadas. 
Tudo culpa do Datena!
O Seu Irineu já é aposentado há alguns anos e desde então passa os dias todos em casa vendo tragédias na TV. Desconfiadíssimo, não confia em quase ninguém... Mas, ele gostou de mim desde a primeira vez que nos vimos... e eu também gostei dele.
Ele sempre me contava da juventude dele, que gostava de ir a bailes no clube Espéria ou Paineiras - os mesmos que o meu avô frequentava. Eu ficava imaginando se alguma vez eles se cruzaram por lá.
O Seu Irineu também pulava do bonde andando para não pagar a passagem - o dinheiro que ele tinha era da entrada e do refrigerante ou um sorvete para alguma senhorita bonita.
Ele adorava me contar essas histórias e eu gostava mesmo de ouvi-las.
Infelizmente não nos encontramos mais. Faz tempo que não o vejo. 
Uma pena, pois ele parecia sempre rejuvenescido quando conversávamos.
Ele andava bem doentinho, reclamando...
Preciso dar um jeito de  encontrá-lo qualquer dia desses.
E Seu Irineu também cuidava de mim. Não me deixava sair na chuva. Morria de medo de eu ficar presa em alguma enchente. Uma vez me fez ficar até as 22:00 na casa dele, dai não queria me deixar ir embora porque era perigoso dirigir sozinha a noite!
E também fazia uma marcação cerrada no meu carro:
 - Seu pneu tá careca, precisa trocar!
 - Tá bem sujo, heim? Tem que lavar!
 - A lanterna traseira não tá acendendo....
Ele implicava com todo mundo... menos comigo!
Isso causou um certo ciúme nas filhas, mas eu nem ligava... gostava mesmo era de prosear com o Seu Irineu. Ele me lembrava demais de alguns dos meus velhinhos favoritos. Era meio que uma mistura de alguns deles. Fazia aquelas piadinhas bobas que eu tanto gosto... gostava de fazer joguinhos e trocadilhos... eu caia na risada e ele ria gostoso comigo.
Ele quase não enxerga direito, mesmo assim, fazia toda questão de tirar o carro da garagem para eu colocar o meu quando ia lá... Demorava um tempão, mas fazia questão de arrumar um lugarzinho para o meu carro ficar em segurança.
E eu ficava com muita pena da solidão dele. Era algo que me incomodava bastante. Apesar de não morar sozinho, ele ficava muito só. As filhas brigavam muito com ele e quase sempre estavam cada um no seu canto, sem muito convívio, e eu percebia que ele gostava muito de contar as histórias dele e na maioria das vezes era muito podado. A filha mais velha também o criticava bastante, eles viviam às turras um com o outro... isso me deixava bem chateada, mas nunca me envolvi nas brigas deles.
Eu gostava de como ele cuidava de mim, de como sempre me desejava: "Vá com Deus!", "Toma cuidado!", "Não anda com o vidro aberto!", "Liga quando chegar em casa!"...
É tão bom ter quem se preocupa com a gente! E eu aqui vivendo tão longe da minha família amada, sou meio carente dessas coisas.
Por causa de uma desavença com uma das filhas dele, nunca mais fui na casa dele.
Preciso ligar, preciso lhe dizer que sinto sua falta e gosto demais do meu velhinho mais ranzinza e pão duro favorito!


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mais um bisnetinho para o meu avô

Estou grávida!
Gravidíssima...
Feliz, feliz, feliz!
Ele certamente estaria feliz com mais um bisnetinho ou bisnetinha!


domingo, 12 de agosto de 2012

Meu Pai & Eu!

Em algum momento entendemos que é preciso dar o nome correto as coisas todas que fazem parte da nossa vida.

O sr. Domingos Mani, não foi apenas o meu avô ou aquele cara íntegro que me acolheu no seu lar no final de 1974. Tão pouco foi só uma pessoa que me alimentou durante toda infância e adolescência ou que me deu uma cama para dormir.

Além disso, ele foi a pessoa que sempre esteve lá...

Nos dias de febre, nos dias de gargalhadas livres ecoando pela casa, nos dias de dor, nos dias de festas, nos dias de lágrimas, naqueles em que tive pesadelos ou  medo de ficar sozinha, quando tive dúvidas, inseguranças, incertezas...

Eu nasci numa quarta-feira de cinza, mas ele não foi pular carnaval na noite anterior, curtir algum baile ou festa na companhia de algum amigo... Ele tão pouco estava de ressaca nessa quarta-feira de cinzas... Era ele quem estava lá no hospital me esperando nascer. Ele foi o único homem a me dar banho quando eu era um bebê.

Também era ele quem levantava nas madrugadas frias, no interior do Paraná, ia acordar o cara da farmácia para comprar remédios ou uma chupeta nova para que eu conseguisse dormir quando perdia a minha...

Era para a cama dele que eu corria chorando, tremendo de medo quando acordava no meio de um pesadelo... Era ele quem ficava afangando os meus cabelos até eu me recompor e voltar a dormir e no dia seguinte, como mágica, acordava de novo na minha própria cama.

Foi ele quem correu comigo para o hospital quando quebrei meu braço aos três anos de idade. Ele quem pagou toda a festa, churrasco, bolo e minhas roupas de aniversários.

Era ele quem me carregava no colo quando estava cansada de caminhar. Era ele quem comprava minhas roupas, sapatos e chocolates. Quem cortava minhas unhas ou me dava broncas quando fazia alguma arte.

Foi ele quem segurou na minha mão e enxugou as minhas lágrimas, naquela noite fria de 1978, quando voltei chorando da rodoviária triste porque minha mãe havia partido para trabalhar na cidade grande. Era ele que ficava comigo quando minha avó ia para igreja...

Foi ele quem me mostrou a lua cheia pela primeira vez... quem me ajudou a aprender a ler e escrever, a fazer contas, a resolver problemas a entender a ordem dos planetas... Ele também foi o cara que me ensinou história do Brasil.

Era ele quem comprava os meus livros e cadernos... quem me abraçava e me dava parabéns no final do ano letivo... Era ele quem dizia que estava orgulhoso por eu ter passado de ano.

Era junto dele que eu lia gibis e via novelas, que escutava a Turma da Maré Mansa no rádio e ria da Nhá Barbina, da Dona Santa ou da Dulcinéia... Era com ele que eu via os desenhos do Garoto Juca, da Turma do Lambe Lambe, o seriado do Chaves ou o Som Brasil, com o Rolando Boldrim.

Era para ele que eu contava meus segredos, reclamava da vida ou fazia fofocas... Era com ele que eu ria a minha risada mais gostosa, chorava meu choro mais sentido, no seu ombro ou deitada em seu colo.

Foi ele quem cantou "A Chalana" para dizer que realmente compreendia a minha tristeza sem que eu precisasse lhe dizer nada... ele simplesmente me acalmava todas as vezes que estava nervosa.

Era ao lado dele que eu me sentava por horas e ficava ouvindo histórias, interrompendo e levando broncas. Era com ele que eu falava mais que a boca e ele nunca me pedia para parar... nunca se mostrava entediado, ele realmente gostava de ouvir minhas tonterias... ele sempre ria de todas elas...

Foi ele quem me ensinou a amarrar os sapatos, abotoar o casaco, pentear os cabelos, escovar os dentes, descascar laranjas, pedir licença, dizer bom dia, por favor e obrigada!

Era ele quem me obrigava a comer verduras e legumes e a raspar o prato. Era ele todas as noites que respondia já deitado em seu quarto: "Deus te Abençoe". Era ele quem dizia no portão: "Vai com Deus!".

Também era ele quem proibia namoricos, quem queria saber tudo sobre meus amigos, onde ia, com quem ia e que horas ia voltar... era ele quem algumas vezes ia me buscar em algum lugar.

Era ao lado dele que eu sempre me senti mais segura. Ele nunca me disse que jamais iria embora ou que nunca me abandonaria, mas eu sempre tive certeza de que ele jamais faria isso... e ele realmente nunca fez e sempre esteve esperando por mim.

Foi ele quem me aconselhou sobre garotos e namorados, sobre más amizades, maus comportamentos e me cobrava postura de menina descente.

Foi para ele que pediram para se casar comigo... E foi ele quem me viu entrar vestida de noiva na igreja...

Foi para ele que eu contei que iria ter um bebê... foi ele quem me abraçou, me desejou boa sorte e me falou todas as coisas que eu precisava saber sobre maternidade...

Foi ele quem me aconselhou a fazer uma faculdade, a me separar quando as coisas ficaram difíceis, a me mudar para cidade grande e procurar um lugar ao sol.

Foi ele quem me ensinou a importância de ser honesto, ético, generoso, incorruptível, franco e verdadeiro.

Foi ele quem me deu os mais belos exemplos de respeito, cidadania, humildade, bondade e amor...

Foi ele quem me ensinou a ter fé... que sempre há uma esperança e que posso ser uma vencedora.

Foi ele quem me mostrou os caminhos, as pedras e explicou como poderia a tirá-las...

Foi ele quem disse que algumas vezes eu poderia me perder, mas que era perfeitamente capaz de me reencontrar rapidamente...

Foi ele quem disse que não é feio, nem errado mostrar nossas fragilidades... que ninguém é assim tão forte ou perfeito que não comete alguns erros as vezes. Que as vezes seria discriminada por minhas escolhas, ridicularizada por minha fé ou defeitos... mas que eu não deveria dar importância a isso... As pessoas são arrogantes, egoístas, mas ainda assim é preciso erguer a cabeça, aprender e continuar...

Foi ele quem acreditou nas minhas ideias malucas, quem me encorajou a ser forte, determinada...

Foi ele quem me disse que eu poderia realizar meus sonhos. Que poderia chegar onde quer que eu quisesse... se realmente quisesse... Foi ele quem pediu que eu nunca desistisse de tentar ser feliz...

Ele me admirava, gostava de quem eu sou... eu o percebia sempre feliz quando estávamos juntos, mesmo se não falássemos absolutamente nada. Ao lado dele eu era livre, inteira...

Ele foi o cara mais simples e adorável que eu conheci. Ele é, sem sombra de dúvidas, a pessoa que mais admiro no mundo inteiro e ninguém, mesmo por algum direito legal ou biológico, jamais vai tirar dele o posto de meu pai - que realmente é o que ele sempre foi para mim.

Feliz Dia dos Pais Sr. Domigos Mani! Obrigada por ter sido o melhor pai que alguém poderia ter tido.

Que o meu melhor beijo, meus melhores sentimentos e desejos cheguem até você...

Da sua filha que te ama eternamente,

Adriana Mani






quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Caixa Amarela da kodak

Quem já leu o livro Meu Avô & Eu vai se lembrar.
No capítulo A Lua, conto a história da caixa da Kodak no seguinte trecho:

"...Nessa noite também, lembro que o meu irmãozinho chorou a madrugada inteira. Ele sempre chorava, mas nesse dia chorou mais do que o costume. Nunca me esqueci daquela caixa amarela em cima do guarda-roupa. A caixa da Kodak era a primeira coisa que eu via quando acendiam a luz para atender o bebê..."


Hoje lendo alguns blogs na Internet dei de cara com essa imagem: Eis a dita caixa amarela da Kodak que acompanhava minhas noites insones enquanto meu irmãozinho berrava a plenos pulmões.

=)

sábado, 7 de julho de 2012

Tão Forte e Tão Perto!




Tão Forte e Tão Perto!

Coincidências? Talvez!
Hoje faz cinco anos... cinco longos anos que falei com meu avô pela última vez...
Faz cinco anos que eu disse que o amava pela última vez...
Cinco anos que o beijei na testa e disse adeus!

E hoje... cinco anos depois esse filme me atraiu na prateleira da locadora...
Peguei-o sem saber absolutamente nada sobre ele... nenhum trailer, nada!

Peguei-o simplesmente porque foi escrito por Jonathan Safran Foer, o personagem de um dos meus filmes favoritos: Everything is Illuminated, ou Uma Vida Iluminada, em português...

E o filme é lindo... um dos mais lindos que vi nos últimos tempos.
Fala de vida, de morte, de encontros... de reencontros...
Fala da relação de pai e filho... de avô!
Tantas coincidências... tantas mensagens:

"É preciso enfrentar seus medos"
"É preciso continuar a busca"

Amanhã é um outro domingo...
Cinco anos depois é domingo novamente e eu preciso enfrentá-lo!
E eu preciso continuar a busca...

E preciso agradecer por tudo!

Obrigada meu PAI... meu avô!

domingo, 17 de junho de 2012

Seu Cassimiro


Seu Cassimiro devia ter bem mais de sessenta anos, mas ainda assim era um vigia concursado do Estado do Mato Grosso.


Convivi com ele durante os quatro anos que trabalhei na Secretaria de Turismo. Ele chegava sempre no meio da tarde, apesar do turno dele só começar no início da noite. Chegava sempre a tempo de tomar o café da Dona Ditinha com os pães "ressuscitados"* da Anomélia.

Seu Cassimiro, apesar da idade, era casado com uma moça bem jovem e tinha um filho pequeno, de uns 5 anos. Filho que ele deu para o Secretário batizar, tonando-se assim compradre do "Home". E o seu Cassimiro tinha a maior intimidade com o nosso falecido secretário. Chegava na Secretaria, tomava o café da Dona Ditinha e se mandava para a sala principal para relatar os acontecimentos noturnos da Sedtur. E o secretário dava a maior corda:

- E aí compadre? Tudo certo? Tá cuidando direitinho da nossa Secretaria?

O Cassimiro, sempre papudo, contava a maior vantagem:

- Claro cumpádi! O Véio aqui num dorme em serviço não! Não tenho medo de bandido e nem de nada!

E o Secretário elogiava:

 - É isso ai compadre, tem que cuidar do patrimônio do Estado.


Acontece que todo mundo ali tinha uma história sobre o Cassimiro para contar. A dona Ditinha, que cuidava da copa e da limpeza, andava possessa da vida porque o seu Cassimiro, durante a noite, em vez de ir ao banheiro se aliviava ali no pátio mesmo. Depois de dar um dura nele e apertá-lo ela acabou descobrindo, por dedução, que o seu Cassimiro estava com medo dos fantasmas.

A Secretaria ficava num prédio muito antigo na Praça da Matriz. O local, que hoje abriga o Museu Histórico do Mato Grosso, tem uma longa história. Já foi o Palácio de Justiça do Mato Grosso, a Casa do Tesouro do Estado e palco a famosa "Rusga", revolta que ocorreu na madrugada 30 de maio de 1840, que acabou sendo o início de uma série de acontecimentos que culminou na Inconfidência Mineira. Há no prédio porões escuros, com grades de ferro que, dizem os conhecedores do assunto, era onde ficavam os escravos. E, segundo o seu Cassimiro, durante a noite coisas estranhíssimas aconteciam na Sedtur. Mas ele, destemido como só, nunca assumiu que morria de medo dos fantasmas.


Certa noite o Secretário esqueceu uns documentos no gabinete e resolveu passar para buscá-los. Na manhã seguinte ele nos contou que chegou por volta das 22:00 e o seu Cassimiro roncava alto. Disse que ele arrumava um colchãozinho na beira da porta - assim se alguém tentasse entrar ele acordaria e também era fuga rápida caso um espírito aparecesse . O Secretário contou que abriu a porta e passou por um pequeno espaço, entre o colchão do seu Cassimiro e a porta, pulou por cima do dorminhoco, pegou os documentos no gabinete, saiu, trancou tudo e ele nem se mexeu.

Na tarde seguinte, após o café, o vigia foi na sala do chefe, que o recebeu animado:

 - E então compadre? Correu tudo bem na noite passada? Nenhum acontecimento durante a noite?

E ele:

 - Nada cumpádi! Tudo na mais tranquila paz!

O Secretário insistiu:

 - Não apareceu ninguém aqui durante a noite? Será que o Senhor não anda dormindo não?

O Cassimiro:

 - O que cumpádi? Não aconteceu nadinha, tô falando prô sinhor! Eu sou olho vivo, não passa ninguém dessa porta não.

Tempos depois eu mesma comprovei a história contada pelo Secretário. Tinha esquecido minha bolsa e resolvi passar lá para pegá-la. Eram umas 21:30. Depois de uns 15 minutos berrando e batendo insistentemente na porta o seu Cassimiro respondeu:

 - Quem é que é?

E eu:

 - Sou eu seu Cassimiro, a Adriana!

E ele abrindo a porta:

 - Ah é você fia? Ah bão! Eu tava fazendo a ronda sabe não escutei chamando.

O colchãozinho dele tava lá na beira da porta e com as cobertas desfeitas, sinal de que estava deitado, e eu também tive que pulá-lo.




Nesse dia fiquei lá conversando com ele e acabei perguntando para ele sobre os fantasmas. Seu Cassimiro arregalou os olhos e me contou várias histórias engraçadas e aterradoras. Contou que uma vez viu o rosto de uma mulher no espelho do banheiro, que escutava choros e sussurros. Era grande a lista do seu Cassimiro de acontecimentos noturnos, mas isso fica para um outro post.

Em dezembro de 2002 me mudei de Cuiabá e por algum tempo soube notícias do seu Cassimiro, mas depois que ele se aposentou nunca mais soube dele.

*pãezinhos ressuscitados: técnica da minha queridíssima amiga Anomélia usa para deixar pães dormidos como se tivessem acabado de sair do forno. Basta simplesmente umedecê-los levemente (ela molhava os dedos na água e espirrava nos pãezinhos) e depois colocá-los uns dois minutinhos no forno convencional. E funciona que é uma beleza, desde que aprendi com ela todo pão dormido aqui de casa é "ressuscitado"no dia seguinte.

Fotos: google

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Tempos Modernos


O artista novaiorquino Jason Yarmosky retrata de forma incrível o hiperrealismo. 
Sempre focado no tema idosos, que eu prefiro chamar de meus velhinhos favoritos, tem uma série inteira de pinturas com retratos inusitados. Ele capricha nos detalhes, como a textura da pele, por exemplo.

Confira o site dele, aqui!

Segue abaixo dois dos trabalhos dele:





domingo, 22 de abril de 2012

O Encantador de Gatinhos

Ele se chama Senhor Orlando e há mais de quinze anos alimenta gatinhos abandonados no Parque Ibirapuera. Eu o conheci num domingo enquanto corria na trilha do parque.

Era final de 2008 e eu estava bastante empenhada em perder alguns quilos. Para isso comecei a caminhar diariamente no parque e em pouco tempo já estava correndo alguns quilômetros. Enquanto corria pela trilha passava sempre por um lugar lotado de gatinhos. Eu sou apaixonada por felinos e sempre ficava olhando-os. Mexia com eles e chegava a parar para observá-los algumas vezes. Ficava pensando: como será que eles se alimentam? Onde dormem? Numa das vezes percebi uns potinhos com rações deixados em alguns pontos.

Todas as vezes que passava por lá percebia sempre a ração fresquinha e potinhos com água limpa. Ficava feliz e intrigada: quem será que alimenta esses gatinhos? Imaginava ser algum funcionário do parque...

Nesse domingo qualquer no final de 2008 resolvi sair mais cedo para correr. Levava comigo o celular, que sempre uso para ouvir músicas quando corro. Quando entrei no km 1 da trilha dei de cara com ele: o encantador de gatinhos. Ele estava munido com sacolas, sacos de rações, potinhos de carne cortadinhas em pequenos cubos e garrafinhas com água. Assoviava feliz da vida. À sua volta pelo menos uns 12 gatinhos lhe faziam festa. Conforme ele se aproximava os gatinhos iam saindo do mato e ficavam pulando em torno dele. Meu coração se encheu de alegria. Sem a menor cerimônia cheguei para ele e disse:

 - Ah! Então é o senhor?

E ele sempre sorrindo me respondeu:

 - Sim filha sou eu que venho aqui alimentar esses pestinhas que eu amo. Minha esposa já quis até se separar de mim por causa do meu encontro diário com eles, que para mim é sagrado.

Ele me estendeu uma sacolinha e sem perceber comecei a ajudá-lo a distribuir os pedacinhos de carne e ração. Depois de alimentar os gatinhos todos, nessas alturas já tinha desistido da minha corrida, nos sentamos num banquinho lá na Praça do Porquinho e conversamos por horas. Ele me contou que há muitos anos vai religiosamente ao parque alimentar os bichanos e que nunca mais viajou e nunca mais foi à missa pela manhã. Ele simplesmente não tem coragem de deixar os bichinhos sem comida. Por causa disso disse que já arrumou muita briga, com pessoas que frequentam o parque, que não gostam de gatos e acham errado o que ele faz. Disse que a sua esposa fica chateada por ter de viajar sempre sozinha ou com as filhas, mas ele disse que alimentar esses gatinhos é o seu principal compromisso na vida.

Eu fiquei encantada com suas histórias, com a sua dedicação à gataiada. Depois desse dia passei a ir todos os domingos de manhã ao parque. E nos encontramos algumas vezes. Em seguida, passei uma longa temporada sem ir correr no parque. No final do ano passado voltei a correr na trilha. Alguns dias na semana passo de novo pelo caminho e fico feliz quando vejo, ainda hoje, os potinhos de ração espalhados. Ainda não o reví, mas tenho ido sempre aos domingos de manhã na esperança de reencontrar o meu amigo encantador de gatinhos.




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Olá!

Estou bem ausente daqui, mas prometo voltar em breve!
Estou num projeto em outro blog e não estou conseguindo postar nos dois, mas daqui alguns dias terei mais tempo e volto a postar aqui amigos.

Um grande abraço e um feliz 2012!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Jardim da Minha Avó... ou O Pé de Bife!


Eu devia ter uns 4 ou 5 anos no máximo. Morava na casa dos meus avós e vivia rodeando minha mãe e as minhas tias, ainda moças e que, para mim ao menos, estavam sempre fazendo ou dizendo coisas interessantíssimas.

Era uma casa de madeira com três quartos e um quintal enorme. Nessa casa, no interior do Paraná, havia um belo jardim cultivado com muito carinho pela minha avó. nhamos hortênsias azuis, um pinheirinho de natal enorme e até um pé de café. Tudo que poderia nascer e crescer na terra a minha avó metia ali no jardim, resultando numa verdadeira confusão de árvores, plantas e flores. Mas, por alguma razão, que desconheço, aquilo tudo harmonizava-se e o jardim era realmente muito bonito.

No jardim da minha avó vivi grandes aventuras. Passava a tarde toda entre as flores brincando e conversando com amigos imaginários. Eu gostava muito das margaridas e das roseiras e vivia me espetando nos espinhos.

Além do jardim, minha avó, que ainda hoje tem o costume de plantar um pé de árvore para cada filho, neto ou bisneto que nasce, está sempre às voltas com a sua horta no fundo do quintal. Em sua casa comemos as hortaliças sempre fresquinhas. Até uma plantação de mandioca ela anda cultivando.

Na manhã de um sábado ensolarado acordei e não encontrei ninguém na casa. Passei pela cozinha, apanhei um pãozinho de minuto, recém saído do forno, e comecei a chamar pela minha avó. Logo descobri que as mulheres da casa estavam todas no jardim, aguando as plantas e conversando.

Fiquei por ali ouvindo a conversa enquanto observava a destreza com que minha avó tirava os galhinhos e folhas secas de uma das plantas.

Em seguida minha avó e minha mãe entraram. Provavelmente já estavam preocupadas com os afazeres do almoço. Meu avô e meus tios chegavam por volta das onze horas para almoçar.

Assim que elas entraram, minhas tias começaram a falar sobre as flores: o quanto estavam bonitas e que minha avó tinha uma mão ótima para plantá-las. A conversa girava em torno disso quando a tia Isa falou:

- Eu queria saber como é um pé de pimenta do reino, pois eu nunca vi nenhum!
- E eu – disse a tia Ironí – queria saber como é um pé de cupuaçu.

Querendo entrar na conversa e ao mesmo tempo satisfazer minha curiosidade, saí-me com essa:

- Ah! Eu queria mesmo era saber como é um pé de bife!
- Um pé de bife?!- riram as tias espantadas.
- É! – respondi sem graça.

Então a tia Isa me explicou que não existia um 'pé de bife'. Fiquei intrigada quando ela disse que as carnes que eu via penduradas no açougue do seu Joaquim vinham das vacas.

Pensei em como era que as vacas produziam as carnes. Imaginei que deveria ser algo parecido com a produção do leite. Demorou ainda um bom tempo para eu descobrir toda a cruel verdade.


Fotos: acima a minha avozinha e sua plantação de mandiocas lá no Mato Grosso. No início ela e seu atual jardim recém iniciado.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Não Perder a Simplicidade!


Olá Pessoal!
Andei pensando muito sobre tudo que aprendi com os meus queridos amigos idosos, os meus velhinhos favoritos, como gosto de dizer. Conheci muitos deles e tenho postado aqui nossas histórias. Tenho ainda muitas outras para contar.

Muitas culturas veneram seus anciões e aprendem com eles sábias lições. Nós, infelizmente ainda não aprendemos a dar o devido valor àqueles que cuidaram de nós com tanta eficiência. Muitas vezes achamos que eles não sabem mais das coisas, que não são capazes e queremos cuidar deles como se fossem nossas crianças. O corpo pode até estar cansado e desgastado pela longa jornada, mas a alma deles, acreditem-me, permanece sempre jovem. Estão sempre dispostos a nos dar de si, nos ensinar e contar suas experiências. Nós devíamos confiar mais neles. Devíamos deixá-los nos mostrar mais do quanto são capazes.

Duas coisas me fizeram pensar muito sobre o "envelhecer" por esses dias: a primeira delas foi um filme chamado: Meu Pai, uma lição de Vida, com o Jack Lemon e Ted Danson. Dias depois, vi um documentário muito interessante no canal Discovery. Ambos mostram que quando valorizado, o idoso envelhece melhor, mais capaz de cuidar de si e com mais saúde.

O filme, mostra a evolução de um idoso, depois que o filho e o neto vem para casa, para cuidar dele, enquanto a mãe está no hospital. Essa convivência os aproxima e juntos começam a dividir as tarefas de casa, passam mais tempo conversando e se divertindo juntos. O pai melhora consideravelmente. Um senhorzinho totalmente dependente, passa a tomar decisões, fazer suas próprias refeições e adquire independência, após esse contato com o filho e o neto, que o encorajam.

O documentário, mostra um teste feito em 1979, onde idosos foram levados para uma casa e lá teriam que fazer eles mesmos suas próprias coisas. O resultado foi surpreendente: todos eles voltaram para casa mais independentes, mais dispostos e melhoraram sua saúde.

Eu tenho muita sorte nessa vida e a felicidade de ter convivido com amigos mais velhos, bem mais experientes que eu, e sempre aprendi muito com eles. Uma das coisas mais interessantes que eles me ensinaram foi: "Não Perca Sua Simplicidade!". Ouvi isso de quase todos eles e entendi que no final da nossa caminhada é isso que vamos finalmente compreender. No final das contas, o mais simples, realmente é o mais importante!
Não perder nenhuma oportunidade de estar com os nossos entes queridos e mais experientes, pode ser um gesto muito inteligente, pois só quem já trilhou, na nossa frente, o caminho que estamos fazendo, pode nos dar as dicas certas.

Como vocês estão acompanhando, tenho histórias belas, de contatos que me enriquecem muito, mas todos eles me disseram que eu não devia perder a simplicidade e não perder a minha essência. Não procurar muito longe de mim mesma a minha felicidade, pois ela está nas coisas simples à nossa volta e não tão longe como sonhamos e imaginamos.

Vamos pensar nisso?


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Era uma vizinha portuguesa, com certeza!

Eu tinha 22 anos quando me tornei vizinha da dona Bernarda. Havia acabado de me mudar para Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. Aluguei uma casa de madeira com um quintal enorme que fazia divisa, aos fundos, com o quintal da vizinha portuguesa.

Logo que cheguei, percebi que as casas estavam separadas por uma cerca de balaustras e um providencial portãozinho. No quintal haviam dois pés de mangas, um pé imenso de abacates, um generoso mato crescendo atrás da casa e havia ainda uma trilha que levava até o o tal portãozinho da cerca do fundo.

Para cortar caminho o casal vizinho atravessava, sem a menor cerimônia e como sempre fizeram, pelo meu quintal.

Já no dia da mudança, entre caixas e móveis sendo descarregados, fui surpreendida pelo simpático casal atravessando o quintal sem se importar com a bagunça.

Dona Bernarda era uma senhora enorme. Alta, um tanto mais alta que o marido, gorda e bastante vaidosa. Andava ali perto dos seus 70 anos. Já o Sr. Afonso era bem magro, de olhos claros, sorriso simpático e muito reservado.

Depois de alguns dias e já familiarizada com a nova casa recebi a visita do casal. Ele e de terno e calado. Ela estava toda arrumada. Usava um vestido branco com enormes bolas vermelhas - que destacavam ainda mais o seu tamanho - os cabelos grisalhos estavam arrumados em cachos que pendiam até os ombros, uma maquiagem um pouco exagerada marcava de rosa as suas bochechas e um elegante colar de pérolas falsas completavam seu traje. Numa mão o inseparável guarda-chuvas e na outra um maço gigantesco de alfaces recém colhidas. Estranhei quando aquela senhora tão arrumada, parada à minha porta, disse:

- Bom dia senhora vizinha! Trouxe-lhes essa verdura e também vim para vos explicar que Afonso e eu encurtamos caminho pelo vosso quintal.

Ela tinha um acentuado sotaque português e era a primeira vez em toda minha vida que alguém me chamava de senhora. Achei delicado seu gesto e desse dia em diante nos tornamos amigas. Toda hortaliça consumida em minha casa vinha da horta da Dona Bernarda e ela por sua vez, chovesse ou fizesse sol jamais usava o portão da frente de sua casa. Preferia sempre atravessar pelo meu quintal para ir onde quer que fosse.

Fomos vizinhas por dois anos e durante esse tempo trocamos receitas de doces, de crochê e papeávamos por horas no portão do fundo. Durante todo tempo que convivi com Dona Bernarda ela jamais deixou de me chamar de senhora vizinha. Eu lhe dizia:

- Dona Bernarda pode me chamar de Adriana mesmo.

E ela:

-Ora pois, mas a senhora não é uma mulher casada? E a senhora não é a nossa vizinha?

Não adiantou, ela nunca me chamou pelo meu nome. Já o Sr. Afonso não me chamava de senhora, mas também nunca me chamou de Adriana, para ele sempre fui "a menina":

- A menina aceita uma xícara de café? Tá fresquinho saiu agora mesmo.

E eu sempre aceitava o delicioso café do Sr. Afonso. Adorava a companhia dos meus vizinhos que viviam sós em sua casa.

Numa das conversas soube que tiveram um único filho, que faleceu ainda jovem de uma doença séria. Era um assunto doloroso demais para eles e eu não perguntava sobre os detalhes, deixava que me contassem o que queriam contar.

Um dia, enquanto tomávamos o café do Sr. Afonso com o saboroso bolo de laranjas da Dona Bernarda eles me mostraram fotos antigas e descobri que a senhorinha lusitana havia sido uma jovem deslumbrante. O Sr. Afonso não resistindo aos seus encantos, pediu-a em casamento. E diante da negativa do futuro sogro roubou-a e foram embora do interior do Paraná. Primeiro para o Mato Grosso do Sul e quando se aposentaram mudaram-se para Lucas do Rio Verde.

Quando eu já tinha uma certa intimidade com o casal, perguntei ao Sr. Afonso por que a Dona Bernarda insistia em me chamar de "senhora vizinha". Ao que ele me respondeu:

- Ah! É o costume dela! E costume da Bernarda eu não discuto.

Assim, dei o assunto por encerrado. Aceitei que havia me tornado mesmo uma jovem senhora. Quando me mudei da casa vizinha, cheguei à visitá-los algumas vezes. Em uma das visitas os encontrei arrumando malas e empacotando caixas. Iam voltar para o Paraná para morarem com um sobrinho deles. O Sr. Afonso andava meio adoentado e o sobrinho achou que seria melhor tê-los por perto.

Nunca mais tive notícias dos meus amigos. Na confusão da mudança acabamos esquecendo de pegar endereços ou telefone. Naquela época não havia tanta facilidade de comunicação e eu sequer sei o sobrenome deles ou a cidade para onde foram. Restando a mim apenas as lembranças, a saudade e o desejo de que estejam bem. Que estejam com saúde e cortando caminho pelo quintal de alguém que os amem tanto quanto eu.




domingo, 6 de novembro de 2011

Rapsódia em Agosto

• Direção: Akira Kurosawa
• Roteiro: Akira Kurosawa, Kiyoko Murata (romance), Ishirô Honda (não creditado)
• Gênero: Drama
• Origem: Japão
• Duração: 98 minutos
• Tipo: Longa-metragem

Enquanto seus pais vão visitar um parente doente no Havaí, quatro adolescentes japoneses ficam na casa de sua avó, em Nagasaki. A velha senhora ainda sofre com a perda do marido, quando a bomba atômica explodiu no local e a deixou viúva, assim como milhares de outras pessoas. Clark é uma americano que, ao tomar conhecimento da perda, decide visitar a família e pedir desculpas pelo ocorrido, deixando frente a frente duas gerações diferentes sobre temas como o perdão e o arrependimento.





domingo, 9 de outubro de 2011

Dona Verdilina

A Dona Verdilina era uma senhorinha de uns 80 anos, mais ou menos, usava sempre um lenço florido amarrado em baixo do queixo. Como era já bem velhinha andava um pouco encurvadinha se e apoiava numa bengalinha. Ela parecia mesmo uma velhinha dessas de desenho animado.

Ela quase não saía de casa e não sei por qual razão vivia sozinha, numa casinha bem simples, de madeira e sem piso, nos fundos da Igreja Cristã, ao lado da Farmácia do Osvaldo, em Francisco Alves no Paraná.

Nessa casinha, que também ficava há duas casas da nossa, tinham dois cômodos: o quartinho no fundo, com aquelas camas de mola e os lençóis mais brancos que poderiam existir. Na frente a cozinha, que tinha apenas um antigo fogão à lenha, feito de barro e sem acabamento, uma mesinha rústica de madeira, dois banquinhos e uma prateleira com uma tábua e uma bacia, onde ela lavava as louças. Tudo na casinha da Dona Verdilina era muito simples, mas de uma limpeza inacreditável.


Ela tinha 80 anos e eu 5, mas éramos grandes amigas. Todas as tardes, religiosamente, eu fugia de casa e ia para a casinha da Dona Verdilina. Era sagrado, todas os dias eu dava um jeito de escapulir de casa e ia ter com a minha amiga querida.

No início era aquele desespero, minha avó e minhas tias ficavam malucas me procurando: Onde se meteu essa menina? E saiam cada uma para um lado à minha procura. Sempre acabavam me encontrando tagarelando na maior intimidade na cozinha da vizinha idosa. Depois de algumas vezes de fuga, minhas tias já iam direto na casinha da igreja me buscar. Fazia parte de todo o ritual sair escondida, mesmo quando todos já sabiam onde eu estava.

Eu adorava papear com a vizinha e tomar o cafezinho fresquinho e doce que ela fazia para me esperar. Ela tinha duas canequinhas verdes de alumínio esmaltadas e dizia que uma dela e outra minha. Ela fazia também uns bolinhos de arroz e esfriava o meu café. Depois ficávamos conversando por horas.

Ela sempre contava histórias de quando ela era pequena e morava na roça, mas nunca me contou porque vivia ali sozinha naquela casinha. Eu ficava olhando ela varrer a casa ou o quintal, lavar as louças e depois lavar e dependurar suas enormes calçolas na cerca. Eu ficava muito admirada com o tamanho das calçolas dela. Às vezes eu queria ajudá-la e então ela me mandava rodar a manivela do cilindro quando ela resolvia fazer pão.

Foram muitas as tardes de prosas na casa da Dona Verdilina, até que um dia cheguei na casa dela e estava tudo trancado. No dia seguinte a mesma coisa e no outro também. E eu voltava para casa triste, mas não falava nada. Numa das vezes minha avó me encontrou voltando cabisbaixa e falou que ela havia se mudado e eu desandei a chorar, fiquei muito brava porque ela não tinha me contado que ia se mudar e nem se despedido de mim.

Minha avó e minhas tias me agradaram e minha tia passou a me levar com ela todas as tardes para escola onde ela lecionava. Eu já tinha feito seis anos e passei a frequentar então o Grupo Escolar Coronel Alípio Ayres de Carvalho como ouvinte da professora Inês.

Anos mais tarde, falando sobre o assunto, minha avó finalmente me revelou que na verdade a Dona Verdilina não havia se mudado, mas que tinha falecido. Naquela manhã a haviam encontrado morta na cama e minha avó ficou com dó de me contar.

Trinta e quatro anos se passaram, mas eu nunca esqueci da minha amiga querida, das nossas conversas animadas e do seu delicioso cafezinho feito no fogão à lenha.

A amizade não conhece limites, fronteiras ou barreiras. E não existe outro nome, além de amizade, para a relação que tinha com a Dona Verdilina.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Resultado do Sorteio!!!


VENCEDORA: ADRIANA SANTOS BASTOS

PARABÉNS!!!

Foram 20 inscritos sendo 19 válidos!

Sorteio Random.Org - Resultado número 14!

Estou enviando um e-mail para a ganhadora para pegar endereço.
Caso não responda em 3 dias, faremos novo sorteio!




Resultado:


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Viva! 100 Seguidores!!!

Ehhhh!!! Chegamos aos 100 seguidores!

Queremos agradecer a todos que aderiram ao blog:
Aos que chegaram no comecinho, aos que vieram pelo Costurando Estrelas, pelo Facebook ou atendendo ao convite dos amigos!

Obrigada de todo o coração por estarem aqui!

Vamos continuar postando dicas, histórias e novidades. Em breve lançaremos um concurso bem bacana para conhecer a história dos avós de vocês. Teremos sempre algum sorteio e esperamos que o blog cresça bastante e que possa continuar trazendo alegrias.


Como prometemos, estamos sorteando entre os cem primeiros seguidores um livro com um uma dedicatória super especial. Para participar bastam se cadastrar no link abaixo:

O sorteio será realizado no dia 05/10/2011 pelo random.org:

Boa Sorte!


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Uma Vida Iluminada


Jonathan (Elijah Wood) é um jovem judeu americano, que vai até a Ucrânia em busca da mulher que salvou a vida de seu avô em uma pequena cidade da Ucrânia que foi varrida do mapa pela invasão nazista.


Ele é auxiliado nessa viagem por Alex Perchov, um precário tradutor que mais atrapalha do que ajuda, e pelo avô de Alex, um motorista mal-humorado que anda sempre acompanhado de seu fedido e desobediente cachorro, batizado de Sammy Davis Jr.

A viagem que começa como uma jornada para juntar os pedaços da história da família transforma-se em uma saga surpreendentemente significativa, com revelações formidáveis: a importância de recordar, a natureza perigosa dos segredos, o legado do Holocausto, o significado da amizade e, mais importante, do amor.



Filme Maravilhoso!


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

"Seu" Pedro, o Padeiro!



Aos quatro anos, como todos sabem, eu morava numa pacata cidadezinha, chamada Francisco Alves, no interior do Paraná com os meus avós e, quando por algum impedimento qualquer minha avó não fazia seus maravilhosos pães, eu tinha a incumbência de atravessar a rua e ir até a esquina comprar pão no bar do "Seu" Pedro.


E lá ia eu, feliz da vida, com a antiga notinha de um cruzeiro, amassada na mão, comprar o pão. O troco podia trazer de bala Sete Belo.

Lá no Bar do "Seu" Pedro tinha ainda: doce de coração (abóbora), maria mole (como recheio entre duas bolachas maria), chocolate de guarda-chuvinha, pirulito do zorro, canudinho de doce de leite, teta de nega, maria mole, doce de banana na casquinha de sorvete e suspiro cor de rosa.




Eu adorava, quando minha avó me chamava na cozinha, me dava o "cruzeiro" e me mandava ir no Neusa Bar.

O "Seu" Pedro era um senhor já bem velhinho, uma figura bastante inusitada. Bem magrinho, fumava sem parar um fedorento cigarro de palha, andava arrastando as sandálias franciscanas e morava no fundo da padaria. Tinha duas filhas, uma delas dava nome ao seu bar/padaria. Além das filhas crocheteiras, o padeiro tinha uma esposa, dona Rosa, e um gato gordo.

Você podia chegar a hora que fosse no bar do "seu" Pedro, que nunca havia ninguém no balcão para lhe atender. Você tinha que chegar, debruçar sobre o balcão, encher o pulmão e...

- Seu Pedrooooooooooooo eu quero uma bengalaaaaaaaa!

Alguns minutos, e outros berros, depois ele aparecia arrastando suas sandálias. Pegava o dinheiro, guardava na gaveta, espantava o gato que ficava dormindo em cima do balcão e depois girava o baleiro. Essa era a melhor parte. Ele girava o baleiro e a gente ficava com o dedo apontando para os compartimentos do baleiro. Quando parava, ele tirava o doce de dentro, de onde tinha parado, e dava de troco. Eu gostava quando parava na teta de nega ou no chocolate de guarda chuvinhas, mas morria de raiva quando parava no suspiro duro cor de rosa.

Passei a infância inteira indo, alguns dias na semana, comprar pão na padaria do velho Pedro. E todos os dias, antes de ir para casa, olhava as roseiras no jardim da dona Rosa, mexia no rabo do gato do "seu" Pedro e comia meu doce antes de chegar em casa.

Anos depois, quando já estava com uns 12 anos, "seu" Pedro foi um dos que me procuraram pela cidade inteira quando sumi. E foi também na frente do "seu" Pedro que tomei a inesquecível surra, no episódio que narro no capítulo Menudomania do livro Meu Avô e Eu.

Pouco depois do meu sumiço e da surra, o "seu" Pedro faleceu. A viúva Dona Rosa e as filhas moraram ainda por um tempo na casinha no fundo da padaria e tentaram tocar o velho bar.

Comentava-se na cidade que, depois de passado o luto, a viúva se enfeitava toda, colocava o melhor vestido, passava rouge e batom e mandava beijos para o Cid Moreira no final do Jornal Nacional. Ficava toda prosa achando que o sonoro "Boa Noite" era para ela. Eu nunca vi a Dona Rosa dando boa noite para o Cid Moreira, mas juro que um dia fui levar alguma coisa na casa dela e a senhora realmente estava toda arrumada na frente da tevê, mas eu mesma nunca vi. São lembranças lindas dos tempos de infância.


O balcão do "seu" Pedro era bem parecido com esse...


E o gato preguiçoso dele era tão folgado quanto esse!


E não é que achei uma foto do famoso Bar do Sr. Pedro?
Foto assumidamente roubada da postagem do José Soares 
no Grupo Francisco Alves do Facebook