domingo, 16 de julho de 2017

Meu Querido Cineasta

Outro dia, Diego e eu, visitamos um amigo querido: 'Seu' Agostinho Martins Pereira. O 'Seu' Agostinho é um senhorzinho de 87 anos que durante quase cinco anos foi meu vizinho, no sobradinho da Rua Caracas onde eu trabalhava.

Quase todas as tardes, eu fugia do trabalho para papear no portão ou tomar chá com o meu vizinho querido.

Nos conhecemos por causa de um gatinho. Um belíssimo gato de pelos cinza. Enquanto a filha passeava por Londres e Paris ele tomava conta do bichano.

Numa tarde quente o felino fugiu e entrou sorrateiro na minha sala. Minutos depois, um senhorzinho bastante interessante aparece procurando pelo fujão. Ali mesmo engatamos uma conversa que durou a tarde toda.
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Na manhã seguinte lá estava o vizinho, na sacadinha da sua casa, me acenando e mandando beijos. Desse dia em diante passou a fazer isso quase todas as manhãs. Passei a ser recebida, ao chegar ao trabalho, pelo meu adorável amigo com sonoros: "Bongiorno Principesa" ou "Bon Jour ma Cherrie!"
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Eu me acostumei rápido com seus acenos e beijos matinais. Durante as tardes, pouco antes do final do expediente, fazíamos um pequeno sarau: falávamos de poesias, de lugares, filmes ou coisas da vida. Algumas vezes tomávamos chá.
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Só depois de uns dois ou três anos de amizade é que descobri quem era de verdade o meu vizinho querido. Entre uma conversa e outra contei para ele que estava revendo os velhos filmes da Dercy Gonçalves. Quase cai dura quando ele humildemente contou:
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- Sou um cineasta aposentado. Trabalhei na Companhia de Cinema Vera Cruz, você já ouviu falar? Dirigi nove filmes, entre eles 'Apassionata', filme que escrevi para a Tônia Carrero. Foi também o primeiro filme em que o Paulo Autran atuou.
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E eu ali perplexa:
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- Como é que é? O Sr. fez o que?
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E ele:
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- Sou cineasta e fiz nove filmes. Já assistiu o Gato de Madame do Mazzaroppi? Eu dirigi alguns filmes dele.
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Nesse dia ficamos papeando no velho portão enferrujado até anoitecer. Ao chegar em casa fui direto para a Internet e digitei: 'Agostinho Martins Pereira'. Não encontrei muita coisa sobre o anônimo descobridor do Mazzaroppi.
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O fato dele ser um dos mais importantes cineastas da época gloriosa do cinema brasileiro, não alterou em nada nossa rotina. Continuamos a falar sobre banalidades e gatos.

Fui sua vizinha por mais dois anos. Tempo suficiente para conhecer e me casar com outro amante do cinema. Quando contei ao Diego sobre meu amigo famoso ele ficou empolgadíssimo. No mesmo dia me fez levá-lo para conhecê-lo. Foi paixão à primeira vista.
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O cineasta estava de bom humor. Fez piada com as nossas alianças feitas de casca de coco pelos Índios Zorós, do Mato Grosso. Ele também gostou do Diego, mas não queria, de jeito algum, falar sobre cinema. Talvez alguma mágoa ainda lhe machuque o coração.
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Alguns dias depois entenderíamos melhor sua reserva. O Diego, desde que conheceu 'Seu' Agostinho, passou a pesquisar sobre ele. Numa tarde conversando com o nosso herói me contou que haviam lançado um livro com a biografia dele.
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Descobrimos que a vida do nosso amigo era infinitamente mais interessante do que poderíamos supor. Ele foi simplesmente um dos fundadores da antiga Companhia de Cinema Vera Cruz. Sua história de vida é fascinante.
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Lendo sua biografia, meu carinho por aquele senhorzinho - que cresceu no Itaim Bibi - só fez aumentar. Ele foi um garoto muito pobre que vendia bananas para comprar cadernos e crescia obstinado a se tornar cineasta.
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Conforme avançava na leitura fiquei ainda mais encantada com a sua história que, aos poucos, se confundia com a história daquele bairro tão meu conhecido. 'Seu' Agostinho viu nascer o Itaim Bibi, ia de bicicleta tomar banho no Rio Pinheiros e viu a avenida Juscelino deixar de ser um areal, que ia até o rio, e se transformar numa das avenidas mais importantes de São Paulo.
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Tempos depois a empresa, para qual eu trabalhava, se mudou da casa ao lado. No dia da mudança arrumei minhas coisas com o coração apertado e os olhos marejados de lágrimas. Escrevi-lhe na cartinha de despedida: "O senhor foi a melhor parte desses cinco anos que passei aqui".
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Prometi visitá-lo, mas na correria do dia a dia, sempre acabava adiando a visita. Até que finalmente conseguimos ir vê-lo. Foi um momento muito agradável, estávamos felizes com o reencontro e por outra vez conversarmos animados no velho portão.
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'Seu' Agostinho continua o mesmo senhorzinho excêntrico que sempre ia, de pijamas e chinelinhos, me chamar no escritório para tomar chá com ele. Continua com o mesmo humor inocente, que muito lembra o meu falecido avô. Quando lhe perguntei se iria viajar no feriado, me respondeu:
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- Olha filha, não pretendo viajar, mas na minha idade nunca se sabe quando viajaremos.
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Uma vez mais me diverti muito com o meu velho amigo e senti uma alegria imensa por estar ali, de novo, naquele portão jogando conversa fora.
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Muitas manhãs, quando vou ao trabalho, o vejo de longe - com suas sandálias franciscanas, meias e bermudas - voltando da padaria com um pacotinho de pães.
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Todas as vezes que o vejo agradeço por vê-lo ainda com saúde buscando seu próprio pão e o jornal. Todos os dias eu agradeço por um dia ter encontrado um amigo tão querido e especial.
    
(postagem original 13/09/2011)

Em janeiro de 2017, o 'Seu' Agostinho faleceu e eu só soube disso há dois dias.
O meu amigo tão querido foi embora, resolveu viajar sem me avisar. E eu fiquei ali parada, na frente da casa dele, olhando aquela sacadinha vazia, aquele portão e pude até ouvir em meus pensamentos: Bon jour ma cherrie! E eu vou morrer de saudades de você 'Seu" Agostinho.


terça-feira, 16 de maio de 2017

Anarquistas Graças a Deus - Meu Avô e Eu


Quem apareceu com a novidade foi a minha tia Ilma. Ela foi a grande responsável por introduzir o livro da Zélia Gattai à família. Ela o comprou e o devorou em poucos dias. Depois foi a vez do meu avô. Ele simplesmente não o largou mais. Deve tê-lo lido pelo menos umas cinco vezes ao longo da sua vida.

Tornou-se um ardoroso fã da escritora. Nessa época eu tinha doze anos e o meu irmão seis. Não queríamos nem saber de ler. A gente gostava mesmo era da montanha de gibis, da preciosa coleção, do meu avô.

Meu irmão ainda estava aprendendo a ler e passava a tarde toda gaguejando na leitura, o que me irritava bastante. Preocupado, talvez, com o nosso desenvolvimento literário o meu avô resolveu tomar uma providência. Muito antes de O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, ser um sucesso mundial, meu avô já havia usado a mesma tática do Alberto Knox. Meu avô sentou-se, pacientemente, e copiou duas páginas de Anarquistas, Graças a Deus e, embora eu já conhecesse sua letra, enviou-me anonimamente pelo correio. O meu irmão recebeu meia página com As Aventuras do Cachorrinho Samba.

Eu achei aquela carta a coisa mais maravilhosa do mundo. Era a minha primeira cartinha e a história, contida naquelas duas páginas, me prendeu desde o primeiro parágrafo. No final da carta tinha uma pequena mensagem: essa história continua na página dez, do livro que está em cima do criado, no quarto do vovô. Terminei de ler a carta e imediatamente corri para o quarto dos meus avós. Não desgrudei mais do livro. Naquele dia quando o meu avô chegou do trabalho encontrou meu irmão e eu compenetrados em nossas leituras.

Eu adorei a história. Essa leitura, depois, rendeu-me bons momentos com o meu avô. Por causa do livro até criamos alguns códigos. Muitas vezes ficavámos horas conversando sobre nossas impressões de  o "Anarquistas". Ele comparava as histórias da Zélia com as dele e de sua família Italiana. Envolvemo-nos de tal forma com o livro e as histórias se misturaram tanto que algumas vezes ficava dificil saber se as histórias eram as dele ou as da Zélia.

Eu também me tornei fã da autora. Li praticamente todos os seus livros. O meu avô converteu-me, para sempre, numa leitora fiel de Zélia Gattai. Naquele mesmo ano assistimos à minissérie, que foi veiculada peça Rede Globo, e nos divertímos muito com as trapalhadas da pequena Zélia e seus irmãos.

Anos depois, eu já estava morando em Cuiabá, numa tarde qualquer, liguei para o meu avô. O aniversário dele estava próximo eu queria lhe mandar um presente. Queria lhe dar algo que ele realmente fosse gostar e então pedi-lhe que me dissesse o que o faria feliz. Ele então me respondeu, com aquele jeitão italiano dele: ah, me manda um Anarquistas, da Zélia. Eu queria lê-lo novamente e não tenho mais o meu. No mesmo dia comprei-lhe uma nova edição e despachei, junto com uma carinhosa cartinha, para ele.

Em julho de 2007, quando o meu avô faleceu, eu já estava, há tempos, de volta a São Paulo. Naqueles dias que se seguiram ao velório, fiquei buscando na memória todas as lembranças que eu tinha do meu avô. Evidentemente acabei me lembrando do livro, das conversas e das nossas risadas. Imediatamente juntei todos os livros da Zélia que eu tinha em casa, empilhei-os e me pus a lê-los compulsivamente, começando, é claro, por Anarquistas. Em poucos dias reli todos.

Reler todas aquelas histórias, tão familiares, devolveu meu avô à vida. Emocionei-me. Foram dias e dias completamente absorvida pela leitura. Apesar de não ter mais o meu avõ e juntos rirmos, uma vez mais, das histórias, eu o senti muito próximo.

Enquanto relia Anarquistas, houve uma manhã de domingo, era muito cedo e estava muito, mas muito frio. Eu estava lendo em casa e de repente levantei-me, peguei o carro e fui até a Alameda Santos. Estacionei o carro em frente ao local exato onde ficava a casa da menina Zélia. Niguém pode imaginar o que significou ler um capítulo inteiro, daquele livro, lá, exatamente onde tudo havia acontecido. Fiquei analisando cada detalhes. Aquelas árvores antigas, que eu olhava naquele instante, haviam testemunhado tudo o que eu estava lendo. Para o meu total espanto a farmácia, que a Zélia descreve no livro, em meados dos anos 1920, onde trabalhava o namorado da Maria Negra, ainda estava lá no mesmo lugar, em 2007.

Desci do carro e fiquei andando pela calçada, sentindo o ventinho gelado no rosto e imaginando o quanto o meu avô teria gostado de estar lá comigo naquele momento. Envolvida com os acontecimentos, ao chegar em casa, comecei pesquisar na Internet tudo o que podia sobre a Zélia Gattai. E em uma página de relacionamentos, encontrei o perfil de Paloma Jorge Amado, filha da autora. Deixei um recadinho para ela, contando como o livro havia sido importante na minha história com o meu avô. No dia seguinte, para minha total felicidade, recebi uma resposta de Paloma:

"Adriana, querida, li sua mensagem logo antes de sair para casa de mamãe, onde jantei. Fiquei tão emocionada que copiei para ela, que se emocionou muito também. Depois chegou o meu irmão e a minha cunhada, e a conversa girou em torno de suas palavras, lindas, singelas e tocantes. Foi realmente um momento muito especial que você e o senhor Domingos Mani nos proporcionaram. Um beijo muito afetuoso que manda mamãe, Dôra, João e eu mesma. Obrigada, minha linda.".

Fiquei muito emocionada quando li o recado de Paloma. Pensei no meu avô e senti um certo alívio ou uma sensação de dever cumprido. Finalmente a Zélia soube que o meu avô existiu e que foi, talvez, o maior fã que ela já teve,

No dia 17 de  maio de 2008, aos noventa e um anos, Zélia também se foi. Eu gosto de imaginar que eles possam estar juntos hoje, em algum lugar, e que o meu avô finalmente esteja compartilhando com ela as histórias dele.


terça-feira, 25 de abril de 2017

Adelina - uma história triste.


A tia Adelina Mani, nasceu em 1918 e era a irmã mais velha do meu avô. 
Ela é a protagonista da história mais triste que eu já ouvi na vida. Uma história que escuto desde que me entendo por gente, mas apenas com a maturidade entendi o quanto era dolorosa.
Ainda ontem recebi a notícia que a minha prima Nair, filha dela, faleceu. A família da tia Adelina acabou! Não existe mais! Junto com a Nair foi-se também todos os genes da minha tia. Nenhum descendente, nenhum neto, nenhum parente restou dela.

Mas, nem sempre foi assim.

A Adelina era uma moça linda. Primeira filha do jovem casal Adelaide e Angelo Mani, meus bisavós. A moça bonita se casou cedo e, com o esposo, construiu uma linda família. Em pouco tempo tiveram quatro filhos.

Junto dos filhos: Orlando, Flor, Nair e Edith (nesta ordem na foto), o casal foi muito feliz. Com os filhos já grandinhos, resolveram se mudar para Dracena, no interior de São Paulo. Foi lá que tudo aconteceu.

Pouco tempo depois que a fotografia (acima) foi tirada, meus tios sofreram uma grande tristeza. A filhinha caçula deles, a Flor (menininha menor sentada), faleceu. Eu não sei muito bem como aconteceu, mas sei que a pequena criança foi eletrecutada e sua irmãzinha Nair, de cinco anos, assistiu a tudo.

A família ainda estava se refazendo da morte trágica da minha priminha, quando a Nair, então com seis anos, teve uma meningite bacteriana. Meus tios, mesmo muito pobres, moveram céus e terra para tentar salvar a filha.

Eles estavam vivendo uma época de grande crise, era final dos anos 1940, e não tinham quase nenhuma condição financeira. Mesmo assim, pegaram a filha e foram até a capital, São Paulo, em busca de uma medicina mais avançada, que pudesse salvar a vida da criança. Sem ter como levar os outros filhos, deixaram o Orlando e a Edith com uma vizinha.

Como se sabe, o tratamento para meningite bacteriana, ainda hoje, é muito dificil. Naquela época era ainda mais complicado. Meus tios ficaram ao menos três meses com a Nair internada na Santa Casa de Misericórdia, sendo ajudados por pessoas desconhecidas.

Com tanto esforço e dedicação, meus tios conseguiram salvar a vida da filha, mas ela ficou com algumas sequelas da doença. O cérebro da pequena Nair travou aos seis anos de idade. Ela passou toda sua vida sendo uma menininha esperta, mas foi sempre uma criança.

Quando retornaram à Dracena, uma nova tragédia se abateu sobre a família. Durante a estadia deles na capital, meus tios pouco, ou nenhum, contato tiveram com os filhos. O único meio de comunicação disponível, para eles, naquele tempo eram as cartas. Que demoravam muito e, não raro, se extraviavam. Quando finalmente puderam voltar para casa, a tal vizinha havia ido embora com os filhos mais velhos da tia Adelina.

Meus tios quase enlouqueceram. Procuraram os filhos por todos os cantos, sem sucesso. A única informação que tiveram era que a tal vizinha havia se mudado para Rondônia, lugar de difícil acesso e comunicação. Meu tio chegou a ir até lá, procurando pelos filhos, e minha tia passou a vida inteira mandando cartas para rádios em busca dos seus filhos, mas eles jamais foram encontrados.

Toda família, eu inclusive - com o advento da internet - se mobilizou para encontrá-los, mas ninguém até hoje conseguiu achá-los. O que nos leva a crer que a vizinha os enganou. Agiu de má fé e deve ter mentido sobre seu paradeiro. Simplesmente levou os filhos da minha tia embora sem lhe dar qualquer notícia sobre eles. As crianças devem ter tido seus nomes trocados ou estar mortas.

Meus tios ficaram muito abatidos. Meu tio ficou deprimido, caiu doente e acabou falecendo pouco tempo depois. Minha tia então ficou sozinha com a filha para cuidar. Sabendo disso, meu avô e os irmãos dele, que moravam no Paraná, buscaram a irmã e a sobrinha. Elas foram a morar com a minha bisavó Adelaide. Arrumaram uma casinha, no fundo da igreja, que elas frequentavam, e as três passaram a viver juntas.

Elas moraram nessa casa até 1982. Nessa época eu estava com dez anos  e morava com o meu avô. Lembro-me bem delas, que nos visitava com bastante frequência. O meu avô,  que tinha muito bom humor e costume de apelidar a todos, as chamava de "as cajazeiras". O apelido era um referência às personagens da novela "O Bem Amado", que, como as minhas parentes, só adanvam juntas e de braços dados. Em setembro de 1982, minha bisavó faleceu.


(as "cajazeiras": Nair, minha bisavó adelaide, tia Adelina - fevereiro/1982)

Minha tia Adelina e a Nair foram então morar numa casinha no fundo da casa do meu tio João, irmão do meu avô. Meus tios, João e Emília cuidaram da tia Adelina e da Nair por muitos anos. Minha prima Maria Elena, filha deles, passou muitos anos tentando encontrar os outros filhos da tia Adelina. Numa das minha investidas pela Internet cheguei a me empolgar com um achado. Numa busca pelo nome deles, encontrei uma referência ao nomes deles, mas quando abri a página era uma postagem da Maria Elena procurando por eles também.

A tia Adelina era muito boazinha. Em todas as minhas lembranças a vejo sempre calma e muito calada. Eu era muito jovem e não tinha ideia de todo o sofrimento que aquela pessoa carregava. A visitei pela última vez em 1996, foi quando soube um pouco mais da sua história. Ela já estava velhinha e adoentada. Em 1997 ela faleceu.

A Nair continuou morando com os meus tios João e Emília. Em 2009, Diego e eu fomos visitá-los. Encontrei a mesma Nairzinha de sempre: uma criança, crescida, de seis anos. A mesma menina que brincou, quando pequena, com o meu avô - que era pouca coisa mais velho que ela. Minha mãe, meus tios e seus primos, passaram toda sua infância também brincando com a Nair. O mesmo aconteceu comigo e com meus primos. Todos nós, várias gerações, passamos nossa infância brincando com aquela mulher, enorme, mas que não passava de uma menininha.

Ontem conversando com a minha prima, Edenira, nos lembramos da boneca gigante que a Nair tinha. Era uma boneca "amiguinha" quase do nosso tamanho. Nós ficavamos doidas pela boneca, mas a Nair não deixava a gente a chegar nem perto dela. Alguém da família achou por bem dar à ela uma boneca compatível com o seu tamanho.

Meus tios, queridos, cuidaram da Nair o quanto puderam. Só apenas à alguns poucos anos, quando eles mesmos passaram a necessitar de cuidados foi que a Nai passou a viver num asilo. Meus tios já estão bem idosos, ambos com mais de 90 anos, e não tinham mais condições de cuidar dela. No domingo, 23/04/2017. A saga da "Menininha Peter Pan", que era como eu a chamava, chegou a fim.

E eu vou me lembrar para sempre dela. Da menininha que nunca perdeu o encantamento infantil e uma alegria gratuita. Que jamais perdeu a empolgação por tudo que via. Vou me lembrar daquela criança, já idosa, de cabelinhos brancos, me mostrando empolgada o seu quartinho, a sua cortina da Minnie e um monte de fotografias antigas, dessas de binóculo, contando cada uma das histórias das fotografias. A menina-mulher que, aos 70 e tantos anos, ainda falava: "iguêza", "tia Concêção" e "Adinhâna". Que tinha um coração bondoso e uma memória inacreditável, Você podia passar dez anos sem vê-la, mas ela vinha correndo, sorrindo, te abraçar como se tivesse estado com você no dia anterior.














quarta-feira, 11 de maio de 2016

Chá das cinco

Ele vai ficar bem!
Ele vai ficar bem!

É a frase que a gente repete, como um mantra, na esperança de convencer, a nós mesmos, de que realmente tudo vai ficar bem e aquela pessoa que a gente gosta tanto vai voltar para casa são e salvo.

Ele era um dos meus! Quem segue esse blogue sabe, que desde que eu me entendo por gente tenho os meus velhinhos favoritos. O seu Abílio era um deles. Ele era um dos meus preferidos. O meu companheiro dos chás da tarde, o meu vizinho fazedor de empadinhas e um dos queridos desse meu coração.

Acontece que ele resolveu ir embora. Enjoou dessa vidinha de chás da tarde e as crianças pulando ao redor dele. Deve ter enjoado da barulheira da Santo Amaro, de ficar procurando vaga para estacionar e de tomar vacina da gripe todo ano. 

O complicado é que a gente não ia enjoar nunca dele. Eu não ia nunca, na vida, enjoar das piadas dele, daquele jeitinho de morder o lábio quando ria, das nossas conversas sempre interrompidas pela gritaria das crianças. 

Ele tinha 80 anos, mas parecia menos. Ele era um pai ativo, um avô ativo, um bisavô ativíssimo e um vizinho maravilhoso. Eu vou sentir tanta falta da minha campainha tocando e ele sorrindo na porta:

 - Adriana, você vai comigo pegar a Olívia? 

E eu me sentia tão importante, necessária!

Quem é que vai tocar minha campainha agora, assim do nada?
Quem vai tomar chá de camomila comigo no meio da tarde?
Quem vai me mandar um pratinho de empadinhas quentinhas, as melhores que eu já comi na vida?

Eu o conhecia há pouco mais de 2 anos, mas me apaixonei instantaneamente, como tinha de ser.
Eu estava saindo no portão, com o Tomás ainda bebezinho, e ele entrando com o zelador. Me abriu um sorrisão e disse:

- Muito prazer! Eu sou o Abílio, vou morar aqui e tenho uma bisnetinha da idade do seu bebê!

Pouco tempo depois começou o vai-e-vem do 22 para o 11 e vice versa. Foram os melhores 2 anos, dos 10 que estou aqui. E não sei como vai ser agora. Todas as vezes que eu tocava no 11, ou no 13 ultimamente, era ele quem abria a porta, como fez no último dia 9. E ficava bravo se eu não entrava. E se eu estava com pressa, devia entrar ao menos para lhe dar um beijo... foi essa a nossa última conversa.

- Entra ao menos para me dar um beijo, pô! (esse pô no final da frase sempre vinha com um sorrisinho).

Eu entrei um pouco, o suficiente para receber seu último beijinho. Se eu soubesse que era o último teria exigido uma bela quantia!

Naquele mesmo dia, no meio da noite, minha campainha toca. Não era ele! Era a filha dele dizendo que ele estava se sentindo mal. Descemos todos, chamamos o médico. Ele reagiu! Ele ainda teve tempo de ouvir que nós iríamos cuidar dele e que tudo iria ficar bem. Ele foi para o hospital respirando sozinho, com seu coraçãozinho, ainda que frágil, batendo sozinho... Eu tinha certeza, absoluta, de que ele iria voltar logo para casa. 

Em pensamentos ensaiei a bronca gigante que eu iria dar nele por assustar a gente daquele jeito.

- Ele vai ficar bem! Eu repetia em voz alta até conseguir a me convencer...

Ele ficou bem! Ele está bem! Não tenho a menor dúvida disso, mas do jeitinho dele, resolveu que já era hora de parar de receber broncas e de eu tomar o meu chá sozinha.

E cá estou eu... 17:30 com a minha xícara, ao lado do notebook, esfriando... esfriando...


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Retornando...

Faz muito tempo que não posto aqui!
Faz muito tempo que não consigo postar absolutamente nada aqui...

Eu poderia dizer que foi por causa da gravidez, do filho recém nascido ou dos mil afazeres que tenho diariamente. Mas, a verdade é que eu queria dar um tempo. Queria parar de pensar na falta imensa que o meu avô me faz. Queria parar de me vitimizar pela perda irreparável de alguém que é tão importante para mim. Eu queria parar de sofrer, de chorar, de me sentir assim tão só, tão órfã... Mas acho que não é evitando vir aqui no blog que vou conseguir mudar isso.

Esse ano fez sete anos que meu avô se foi. Sete anos é mais tempo do que convivo com algumas pessoas que amo, meu filho inclusive. Sete anos já era tempo suficiente para eu ter superado a morte dele. Mas eu ainda choro, ainda sofro, ainda me pego pensando o quanto ele poderia me aconselhar, me acarinhar e apoiar se ainda estivesse aqui... E isso é tão egoísta da minha parte que evito até pensar no quanto isso é mesquinho.

Ele me ensinou tantas coisas boas, sempre me incentivou a ser forte, corajosa, independente e batalhadora. O fato é que, depois que ele se foi, eu me tornei uma medrosa insegura, chorona e um bichinho acuado diante de algumas coisas. Parece que sem ele por perto, ao menos perto de um telefone, eu me tornei uma pessoa muito insegura. É claro, que o fato de eu ter passado mais da metade da minha vida vivendo longe da família, tem um peso grande sobre isso. E eu simplesmente não sei direito o que fazer para retomar o meu caminho: firme, forte, confiante e   mas eu quero muito retomar esse caminho.

Tenho tantas histórias dos meus "velhinhos" favoritos para dividir com vocês.
Eu vou voltar!

sábado, 11 de maio de 2013

Meu Avô & Meu Filho!

A vida é sempre surpreendente! E sempre dá um jeito de deixar as coisas de volta no lugar...

Quem já leu o meu livro "Meu Avô & Eu", sabe da relação linda que tive com o meu avô e o quanto eu sofri quando ele se foi em julho de 2007.

Desde então o dia 4 de abril - data que seria o aniversário dele - se tornou uma das datas mais tristes para mim. Eu simplesmente não podia mais ligar, para desejar um feliz aniversário, ou abraçar o meu amado avozinho. 


Foram cinco longos anos chorando muito de saudades nesse dia!

E como todos que acompanham esse blog também sabem, no final de agosto de 2012 descobri que estava grávida. Em dezembro soube que era um menino. Assim que soubemos o sexo do bebê, meu marido e eu decidimos que homenagearíamos o meu avô, dando o seu nome para ele.

Mas esse bebê, tão desejado e amado, também resolveu homenagear o bisavô dele. Ele resolveu nascer, adiantando duas semanas, exatamente no dia que seria aniversário dele: 4 de abril de 2013.
Tomás Domingos Mani Batista. É o mais novo bisnetinho do meu avô Domingos Mani.


Meu avô nasceu num sábado, 4 de abril de 1931 às 11:00, Tomás nasceu numa quinta feira, dia 4 de abril de 2013, às 10:30. Mesmo sendo um prematuro tardio, nasceu grande, pesando 3,3350g e 49 cm. Ele chegou trazendo de volta a minha alegria. Transformando a toda tristeza dessa data em um dos dias mais felizes da minha vida.

E ele é um bebê maravilhoso! É saudável, bonzinho e muito feliz... Tem os olhos castanhos, como os do meu avô, e me olha  de um jeito tão profundo, tão cheio de vida e amor - assim como o meu avô me olhava. Eu acredito que o fato dele ter nascido exatamente nesse dia foi um presente que a vida me deu. Nunca mais estarei triste nessa data.

Eu sinto tanto que o Tomás não irá conhecer uma das pessoas mais lindas que eu já convivi. Sinto tanto não poder mostrar o bisnetinho para ele e vê-lo olhando para o Tomás por um longo tempo, como ele fazia com todos os bebês da família. Eu sinto não poder vê-los caminhando juntos de mãos dadas... O meu avô e o meu filho, dois dos meus amores, meus dois Domingos, meus dois presentes de quatro de abril!


E a saudade continua...
E o amor permanece!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dona Eugênia

Conheci a dona Eugênia tem pouco tempo, mas já nos tornamos boas amigas.
Eu estava na sala de espera, no centro médico, para fazer um exame nos olhos.
Ela se sentou ao meu lado e, muito mais experiente, me falou como seriam todos os procedimentos.
Ficamos ali pelo menos uns quarenta minutos, enquanto a médica vinha, cada pouco, colocar colírio nos nossos olhos. Foi tempo suficiente para a dona Eugênia me contar do casamento maravilhoso, de quarenta anos, que ela teve com o seu amado holandês. 
Quando ela percebeu que estou grávida, me falou do bebê que ela perdeu ainda moça e que por causa de complicações da diabetes, nunca mais pode ter outro filho. Viúva, sem filhos ou família, vive há 8 anos sozinha. E sozinha ela estava para fazer um exame, onde era importante ter um acompanhante.
Em seguida fui chamada para fazer o exame e me despedi dela. Desci, encontrei o Diego, que me aguardava na recepção e quando já estávamos de saída da clínica a encontramos caminhando devagar, por causa das pupilas dilatas pelo exame. 
Apresentei-a ao Diego e ela fez a maior festa!
Disse que ele era lindo, que somos um casal lindo e que nosso bebê será lindo também.
Como ela estava indo para o mesmo lado que nós, dei-lhe meu braço e subimos a rua os três de braços dados. Diego ia conduzindo as duas ceguetinhas.
E dona Eugênia estava empolgadíssima, falamos mil assuntos enquanto subíamos a rua.
Depois de alguns quarteirões a deixamos na porta do restaurante da amiga dela.
Diego e eu fomos até o laboratório marcar um exame, depois almoçamos.
Quando fomos até o ponto de ônibus para voltarmos para casa... Lá estava ela novamente!
 - Olha só o meu casal preferido! É muita coincidência encontrar vocês assim duas vezes!
Conversamos mais um pouco, trocamos telefone e então nosso ônibus chegou.
Dias depois o telefone toca:
 - Oi minha princesinha é a Eugênia, que você e seu lindinho conheceram no centro médico, tá lembrada?
 - Oi dona Eugênia, claro que me lembro da senhora! Como está?
E nos falamos por horas...
Uns dias depois fui eu quem ligou. Depois ela ligou de novo.
Marcamos encontros, marcamos almoços, outras ligações...
E ficamos amigas... grandes amigas.
Ela sempre que vai à igreja ora pelo meu bebê, para que ele ou ela nasça com muita saúde.
Eu sempre penso nela e já combinamos que sempre que ela precisar de acompanhante para algum exame é para ela me ligar.
Ela é uma querida, disse que é minha avó substituta e que quando o bebê nascer vai dizer que é o bisnetinho dela.
Eu não sei o que acontece, qual a minha disposição ou se sou predestinada, mas sei que eu simplesmente amo pessoas idosas e há algo em mim que eles também amam.
Acho que é porque eu adoro ouvir suas histórias e eles adoram ter alguém para ouvi-los.
E eu estou muito, muito, muito agradecida por ter uma nova amiga.
A vida não é mesmo maravilhosa?
Amanhã vou me encontrar com ela, almoçaremos juntas, prometo postar uma foto nossa aqui.

domingo, 14 de outubro de 2012

E Se Vivêssemos Todos Juntos?

 Direção: Stéphane Robelin
Elenco:
Guy Bedos, Daniel Brühl, Geraldine Chaplin, Jane Fonda, Claude Rich, Pierre Richard, Bernard Malaka, Camino Texeira, Gwendoline Hamon, Shemss Audat, Gustave de Kervern, Laurent Klug
Nome Original:
Et si on Vivait tous Ensemble?
Duração:
96 minutos
Ano:
2011
País:
França/Alemanha
Gênero:
Comédia

Annie (Geraldine Chaplin), Jean (Guy Bedos), Claude (Claude Rich), Albert (Pierre Richard) e Jeanne (Jane Fonda) estão ligados por uma forte amizade que já dura mais de 40 anos.

Enquanto os dois primeiros e os dois últimos são casados, o do meio é um tremendo solteirão convicto, que não se cansa de aproveitar a vida. Quando a saúde deles começa a piorar e o asilo se apresenta como solução para um deles, surge a ideia de todos morarem juntos. Mas a novidade acaba trazendo a reboque algumas antigas experiências, que irão provocar novas consequências na vida de cada um.

Filme leve, gostoso... me fez pensar em Friends - o seriado - na terceira idade.



Trailler, aqui ó!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Meu ranzinza favorito!


Convivi pouco tempo com o Seu Irineu.
Um senhorzinho bemmmm ranzinza. 
Tem 85 anos, é um crítico ferrenho de tudo e todos, mas tem ótimas histórias para contar.
Seu Irineu é bem magrinho, adora assistir programas policiais, daqueles bem sensacionalistas, e conta que morreu e foi ressuscitado por uma das filhas dele.
É uma figura! Não gosta, de jeito nenhum, que as pessoas cheguem para comer na casa dele.
Não gosta de visitas e não gosta nada que as filhas saiam de casa.
Está sempre prevendo alguma tragédia caso elas teimem e saiam.
Segundo ele, elas podem ser sequestradas, roubadas, violentadas e até assassinadas. 
Tudo culpa do Datena!
O Seu Irineu já é aposentado há alguns anos e desde então passa os dias todos em casa vendo tragédias na TV. Desconfiadíssimo, não confia em quase ninguém... Mas, ele gostou de mim desde a primeira vez que nos vimos... e eu também gostei dele.
Ele sempre me contava da juventude dele, que gostava de ir a bailes no clube Espéria ou Paineiras - os mesmos que o meu avô frequentava. Eu ficava imaginando se alguma vez eles se cruzaram por lá.
O Seu Irineu também pulava do bonde andando para não pagar a passagem - o dinheiro que ele tinha era da entrada e do refrigerante ou um sorvete para alguma senhorita bonita.
Ele adorava me contar essas histórias e eu gostava mesmo de ouvi-las.
Infelizmente não nos encontramos mais. Faz tempo que não o vejo. 
Uma pena, pois ele parecia sempre rejuvenescido quando conversávamos.
Ele andava bem doentinho, reclamando...
Preciso dar um jeito de  encontrá-lo qualquer dia desses.
E Seu Irineu também cuidava de mim. Não me deixava sair na chuva. Morria de medo de eu ficar presa em alguma enchente. Uma vez me fez ficar até as 22:00 na casa dele, dai não queria me deixar ir embora porque era perigoso dirigir sozinha a noite!
E também fazia uma marcação cerrada no meu carro:
 - Seu pneu tá careca, precisa trocar!
 - Tá bem sujo, heim? Tem que lavar!
 - A lanterna traseira não tá acendendo....
Ele implicava com todo mundo... menos comigo!
Isso causou um certo ciúme nas filhas, mas eu nem ligava... gostava mesmo era de prosear com o Seu Irineu. Ele me lembrava demais de alguns dos meus velhinhos favoritos. Era meio que uma mistura de alguns deles. Fazia aquelas piadinhas bobas que eu tanto gosto... gostava de fazer joguinhos e trocadilhos... eu caia na risada e ele ria gostoso comigo.
Ele quase não enxerga direito, mesmo assim, fazia toda questão de tirar o carro da garagem para eu colocar o meu quando ia lá... Demorava um tempão, mas fazia questão de arrumar um lugarzinho para o meu carro ficar em segurança.
E eu ficava com muita pena da solidão dele. Era algo que me incomodava bastante. Apesar de não morar sozinho, ele ficava muito só. As filhas brigavam muito com ele e quase sempre estavam cada um no seu canto, sem muito convívio, e eu percebia que ele gostava muito de contar as histórias dele e na maioria das vezes era muito podado. A filha mais velha também o criticava bastante, eles viviam às turras um com o outro... isso me deixava bem chateada, mas nunca me envolvi nas brigas deles.
Eu gostava de como ele cuidava de mim, de como sempre me desejava: "Vá com Deus!", "Toma cuidado!", "Não anda com o vidro aberto!", "Liga quando chegar em casa!"...
É tão bom ter quem se preocupa com a gente! E eu aqui vivendo tão longe da minha família amada, sou meio carente dessas coisas.
Por causa de uma desavença com uma das filhas dele, nunca mais fui na casa dele.
Preciso ligar, preciso lhe dizer que sinto sua falta e gosto demais do meu velhinho mais ranzinza e pão duro favorito!


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mais um bisnetinho para o meu avô

Estou grávida!
Gravidíssima...
Feliz, feliz, feliz!
Ele certamente estaria feliz com mais um bisnetinho ou bisnetinha!


domingo, 12 de agosto de 2012

Meu Pai & Eu!

Em algum momento entendemos que é preciso dar o nome correto as coisas todas que fazem parte da nossa vida.

O sr. Domingos Mani, não foi apenas o meu avô ou aquele cara íntegro que me acolheu no seu lar no final de 1974. Tão pouco foi só uma pessoa que me alimentou durante toda infância e adolescência ou que me deu uma cama para dormir.

Além disso, ele foi a pessoa que sempre esteve lá...

Nos dias de febre, nos dias de gargalhadas livres ecoando pela casa, nos dias de dor, nos dias de festas, nos dias de lágrimas, naqueles em que tive pesadelos ou  medo de ficar sozinha, quando tive dúvidas, inseguranças, incertezas...

Eu nasci numa quarta-feira de cinza, mas ele não foi pular carnaval na noite anterior, curtir algum baile ou festa na companhia de algum amigo... Ele tão pouco estava de ressaca nessa quarta-feira de cinzas... Era ele quem estava lá no hospital me esperando nascer. Ele foi o único homem a me dar banho quando eu era um bebê.

Também era ele quem levantava nas madrugadas frias, no interior do Paraná, ia acordar o cara da farmácia para comprar remédios ou uma chupeta nova para que eu conseguisse dormir quando perdia a minha...

Era para a cama dele que eu corria chorando, tremendo de medo quando acordava no meio de um pesadelo... Era ele quem ficava afangando os meus cabelos até eu me recompor e voltar a dormir e no dia seguinte, como mágica, acordava de novo na minha própria cama.

Foi ele quem correu comigo para o hospital quando quebrei meu braço aos três anos de idade. Ele quem pagou toda a festa, churrasco, bolo e minhas roupas de aniversários.

Era ele quem me carregava no colo quando estava cansada de caminhar. Era ele quem comprava minhas roupas, sapatos e chocolates. Quem cortava minhas unhas ou me dava broncas quando fazia alguma arte.

Foi ele quem segurou na minha mão e enxugou as minhas lágrimas, naquela noite fria de 1978, quando voltei chorando da rodoviária triste porque minha mãe havia partido para trabalhar na cidade grande. Era ele que ficava comigo quando minha avó ia para igreja...

Foi ele quem me mostrou a lua cheia pela primeira vez... quem me ajudou a aprender a ler e escrever, a fazer contas, a resolver problemas a entender a ordem dos planetas... Ele também foi o cara que me ensinou história do Brasil.

Era ele quem comprava os meus livros e cadernos... quem me abraçava e me dava parabéns no final do ano letivo... Era ele quem dizia que estava orgulhoso por eu ter passado de ano.

Era junto dele que eu lia gibis e via novelas, que escutava a Turma da Maré Mansa no rádio e ria da Nhá Barbina, da Dona Santa ou da Dulcinéia... Era com ele que eu via os desenhos do Garoto Juca, da Turma do Lambe Lambe, o seriado do Chaves ou o Som Brasil, com o Rolando Boldrim.

Era para ele que eu contava meus segredos, reclamava da vida ou fazia fofocas... Era com ele que eu ria a minha risada mais gostosa, chorava meu choro mais sentido, no seu ombro ou deitada em seu colo.

Foi ele quem cantou "A Chalana" para dizer que realmente compreendia a minha tristeza sem que eu precisasse lhe dizer nada... ele simplesmente me acalmava todas as vezes que estava nervosa.

Era ao lado dele que eu me sentava por horas e ficava ouvindo histórias, interrompendo e levando broncas. Era com ele que eu falava mais que a boca e ele nunca me pedia para parar... nunca se mostrava entediado, ele realmente gostava de ouvir minhas tonterias... ele sempre ria de todas elas...

Foi ele quem me ensinou a amarrar os sapatos, abotoar o casaco, pentear os cabelos, escovar os dentes, descascar laranjas, pedir licença, dizer bom dia, por favor e obrigada!

Era ele quem me obrigava a comer verduras e legumes e a raspar o prato. Era ele todas as noites que respondia já deitado em seu quarto: "Deus te Abençoe". Era ele quem dizia no portão: "Vai com Deus!".

Também era ele quem proibia namoricos, quem queria saber tudo sobre meus amigos, onde ia, com quem ia e que horas ia voltar... era ele quem algumas vezes ia me buscar em algum lugar.

Era ao lado dele que eu sempre me senti mais segura. Ele nunca me disse que jamais iria embora ou que nunca me abandonaria, mas eu sempre tive certeza de que ele jamais faria isso... e ele realmente nunca fez e sempre esteve esperando por mim.

Foi ele quem me aconselhou sobre garotos e namorados, sobre más amizades, maus comportamentos e me cobrava postura de menina descente.

Foi para ele que pediram para se casar comigo... E foi ele quem me viu entrar vestida de noiva na igreja...

Foi para ele que eu contei que iria ter um bebê... foi ele quem me abraçou, me desejou boa sorte e me falou todas as coisas que eu precisava saber sobre maternidade...

Foi ele quem me aconselhou a fazer uma faculdade, a me separar quando as coisas ficaram difíceis, a me mudar para cidade grande e procurar um lugar ao sol.

Foi ele quem me ensinou a importância de ser honesto, ético, generoso, incorruptível, franco e verdadeiro.

Foi ele quem me deu os mais belos exemplos de respeito, cidadania, humildade, bondade e amor...

Foi ele quem me ensinou a ter fé... que sempre há uma esperança e que posso ser uma vencedora.

Foi ele quem me mostrou os caminhos, as pedras e explicou como poderia a tirá-las...

Foi ele quem disse que algumas vezes eu poderia me perder, mas que era perfeitamente capaz de me reencontrar rapidamente...

Foi ele quem disse que não é feio, nem errado mostrar nossas fragilidades... que ninguém é assim tão forte ou perfeito que não comete alguns erros as vezes. Que as vezes seria discriminada por minhas escolhas, ridicularizada por minha fé ou defeitos... mas que eu não deveria dar importância a isso... As pessoas são arrogantes, egoístas, mas ainda assim é preciso erguer a cabeça, aprender e continuar...

Foi ele quem acreditou nas minhas ideias malucas, quem me encorajou a ser forte, determinada...

Foi ele quem me disse que eu poderia realizar meus sonhos. Que poderia chegar onde quer que eu quisesse... se realmente quisesse... Foi ele quem pediu que eu nunca desistisse de tentar ser feliz...

Ele me admirava, gostava de quem eu sou... eu o percebia sempre feliz quando estávamos juntos, mesmo se não falássemos absolutamente nada. Ao lado dele eu era livre, inteira...

Ele foi o cara mais simples e adorável que eu conheci. Ele é, sem sombra de dúvidas, a pessoa que mais admiro no mundo inteiro e ninguém, mesmo por algum direito legal ou biológico, jamais vai tirar dele o posto de meu pai - que realmente é o que ele sempre foi para mim.

Feliz Dia dos Pais Sr. Domigos Mani! Obrigada por ter sido o melhor pai que alguém poderia ter tido.

Que o meu melhor beijo, meus melhores sentimentos e desejos cheguem até você...

Da sua filha que te ama eternamente,

Adriana Mani






quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Caixa Amarela da kodak

Quem já leu o livro Meu Avô & Eu vai se lembrar.
No capítulo A Lua, conto a história da caixa da Kodak no seguinte trecho:

"...Nessa noite também, lembro que o meu irmãozinho chorou a madrugada inteira. Ele sempre chorava, mas nesse dia chorou mais do que o costume. Nunca me esqueci daquela caixa amarela em cima do guarda-roupa. A caixa da Kodak era a primeira coisa que eu via quando acendiam a luz para atender o bebê..."


Hoje lendo alguns blogs na Internet dei de cara com essa imagem: Eis a dita caixa amarela da Kodak que acompanhava minhas noites insones enquanto meu irmãozinho berrava a plenos pulmões.

=)

sábado, 7 de julho de 2012

Tão Forte e Tão Perto!




Tão Forte e Tão Perto!

Coincidências? Talvez!
Hoje faz cinco anos... cinco longos anos que falei com meu avô pela última vez...
Faz cinco anos que eu disse que o amava pela última vez...
Cinco anos que o beijei na testa e disse adeus!

E hoje... cinco anos depois esse filme me atraiu na prateleira da locadora...
Peguei-o sem saber absolutamente nada sobre ele... nenhum trailer, nada!

Peguei-o simplesmente porque foi escrito por Jonathan Safran Foer, o personagem de um dos meus filmes favoritos: Everything is Illuminated, ou Uma Vida Iluminada, em português...

E o filme é lindo... um dos mais lindos que vi nos últimos tempos.
Fala de vida, de morte, de encontros... de reencontros...
Fala da relação de pai e filho... de avô!
Tantas coincidências... tantas mensagens:

"É preciso enfrentar seus medos"
"É preciso continuar a busca"

Amanhã é um outro domingo...
Cinco anos depois é domingo novamente e eu preciso enfrentá-lo!
E eu preciso continuar a busca...

E preciso agradecer por tudo!

Obrigada meu PAI... meu avô!

domingo, 17 de junho de 2012

Seu Cassimiro


Seu Cassimiro devia ter bem mais de sessenta anos, mas ainda assim era um vigia concursado do Estado do Mato Grosso.


Convivi com ele durante os quatro anos que trabalhei na Secretaria de Turismo. Ele chegava sempre no meio da tarde, apesar do turno dele só começar no início da noite. Chegava sempre a tempo de tomar o café da Dona Ditinha com os pães "ressuscitados"* da Anomélia.

Seu Cassimiro, apesar da idade, era casado com uma moça bem jovem e tinha um filho pequeno, de uns 5 anos. Filho que ele deu para o Secretário batizar, tonando-se assim compradre do "Home". E o seu Cassimiro tinha a maior intimidade com o nosso falecido secretário. Chegava na Secretaria, tomava o café da Dona Ditinha e se mandava para a sala principal para relatar os acontecimentos noturnos da Sedtur. E o secretário dava a maior corda:

- E aí compadre? Tudo certo? Tá cuidando direitinho da nossa Secretaria?

O Cassimiro, sempre papudo, contava a maior vantagem:

- Claro cumpádi! O Véio aqui num dorme em serviço não! Não tenho medo de bandido e nem de nada!

E o Secretário elogiava:

 - É isso ai compadre, tem que cuidar do patrimônio do Estado.


Acontece que todo mundo ali tinha uma história sobre o Cassimiro para contar. A dona Ditinha, que cuidava da copa e da limpeza, andava possessa da vida porque o seu Cassimiro, durante a noite, em vez de ir ao banheiro se aliviava ali no pátio mesmo. Depois de dar um dura nele e apertá-lo ela acabou descobrindo, por dedução, que o seu Cassimiro estava com medo dos fantasmas.

A Secretaria ficava num prédio muito antigo na Praça da Matriz. O local, que hoje abriga o Museu Histórico do Mato Grosso, tem uma longa história. Já foi o Palácio de Justiça do Mato Grosso, a Casa do Tesouro do Estado e palco a famosa "Rusga", revolta que ocorreu na madrugada 30 de maio de 1840, que acabou sendo o início de uma série de acontecimentos que culminou na Inconfidência Mineira. Há no prédio porões escuros, com grades de ferro que, dizem os conhecedores do assunto, era onde ficavam os escravos. E, segundo o seu Cassimiro, durante a noite coisas estranhíssimas aconteciam na Sedtur. Mas ele, destemido como só, nunca assumiu que morria de medo dos fantasmas.


Certa noite o Secretário esqueceu uns documentos no gabinete e resolveu passar para buscá-los. Na manhã seguinte ele nos contou que chegou por volta das 22:00 e o seu Cassimiro roncava alto. Disse que ele arrumava um colchãozinho na beira da porta - assim se alguém tentasse entrar ele acordaria e também era fuga rápida caso um espírito aparecesse . O Secretário contou que abriu a porta e passou por um pequeno espaço, entre o colchão do seu Cassimiro e a porta, pulou por cima do dorminhoco, pegou os documentos no gabinete, saiu, trancou tudo e ele nem se mexeu.

Na tarde seguinte, após o café, o vigia foi na sala do chefe, que o recebeu animado:

 - E então compadre? Correu tudo bem na noite passada? Nenhum acontecimento durante a noite?

E ele:

 - Nada cumpádi! Tudo na mais tranquila paz!

O Secretário insistiu:

 - Não apareceu ninguém aqui durante a noite? Será que o Senhor não anda dormindo não?

O Cassimiro:

 - O que cumpádi? Não aconteceu nadinha, tô falando prô sinhor! Eu sou olho vivo, não passa ninguém dessa porta não.

Tempos depois eu mesma comprovei a história contada pelo Secretário. Tinha esquecido minha bolsa e resolvi passar lá para pegá-la. Eram umas 21:30. Depois de uns 15 minutos berrando e batendo insistentemente na porta o seu Cassimiro respondeu:

 - Quem é que é?

E eu:

 - Sou eu seu Cassimiro, a Adriana!

E ele abrindo a porta:

 - Ah é você fia? Ah bão! Eu tava fazendo a ronda sabe não escutei chamando.

O colchãozinho dele tava lá na beira da porta e com as cobertas desfeitas, sinal de que estava deitado, e eu também tive que pulá-lo.




Nesse dia fiquei lá conversando com ele e acabei perguntando para ele sobre os fantasmas. Seu Cassimiro arregalou os olhos e me contou várias histórias engraçadas e aterradoras. Contou que uma vez viu o rosto de uma mulher no espelho do banheiro, que escutava choros e sussurros. Era grande a lista do seu Cassimiro de acontecimentos noturnos, mas isso fica para um outro post.

Em dezembro de 2002 me mudei de Cuiabá e por algum tempo soube notícias do seu Cassimiro, mas depois que ele se aposentou nunca mais soube dele.

*pãezinhos ressuscitados: técnica da minha queridíssima amiga Anomélia usa para deixar pães dormidos como se tivessem acabado de sair do forno. Basta simplesmente umedecê-los levemente (ela molhava os dedos na água e espirrava nos pãezinhos) e depois colocá-los uns dois minutinhos no forno convencional. E funciona que é uma beleza, desde que aprendi com ela todo pão dormido aqui de casa é "ressuscitado"no dia seguinte.

Fotos: google

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Tempos Modernos


O artista novaiorquino Jason Yarmosky retrata de forma incrível o hiperrealismo. 
Sempre focado no tema idosos, que eu prefiro chamar de meus velhinhos favoritos, tem uma série inteira de pinturas com retratos inusitados. Ele capricha nos detalhes, como a textura da pele, por exemplo.

Confira o site dele, aqui!

Segue abaixo dois dos trabalhos dele:





domingo, 22 de abril de 2012

O Encantador de Gatinhos

Ele se chama Senhor Orlando e há mais de quinze anos alimenta gatinhos abandonados no Parque Ibirapuera. Eu o conheci num domingo enquanto corria na trilha do parque.

Era final de 2008 e eu estava bastante empenhada em perder alguns quilos. Para isso comecei a caminhar diariamente no parque e em pouco tempo já estava correndo alguns quilômetros. Enquanto corria pela trilha passava sempre por um lugar lotado de gatinhos. Eu sou apaixonada por felinos e sempre ficava olhando-os. Mexia com eles e chegava a parar para observá-los algumas vezes. Ficava pensando: como será que eles se alimentam? Onde dormem? Numa das vezes percebi uns potinhos com rações deixados em alguns pontos.

Todas as vezes que passava por lá percebia sempre a ração fresquinha e potinhos com água limpa. Ficava feliz e intrigada: quem será que alimenta esses gatinhos? Imaginava ser algum funcionário do parque...

Nesse domingo qualquer no final de 2008 resolvi sair mais cedo para correr. Levava comigo o celular, que sempre uso para ouvir músicas quando corro. Quando entrei no km 1 da trilha dei de cara com ele: o encantador de gatinhos. Ele estava munido com sacolas, sacos de rações, potinhos de carne cortadinhas em pequenos cubos e garrafinhas com água. Assoviava feliz da vida. À sua volta pelo menos uns 12 gatinhos lhe faziam festa. Conforme ele se aproximava os gatinhos iam saindo do mato e ficavam pulando em torno dele. Meu coração se encheu de alegria. Sem a menor cerimônia cheguei para ele e disse:

 - Ah! Então é o senhor?

E ele sempre sorrindo me respondeu:

 - Sim filha sou eu que venho aqui alimentar esses pestinhas que eu amo. Minha esposa já quis até se separar de mim por causa do meu encontro diário com eles, que para mim é sagrado.

Ele me estendeu uma sacolinha e sem perceber comecei a ajudá-lo a distribuir os pedacinhos de carne e ração. Depois de alimentar os gatinhos todos, nessas alturas já tinha desistido da minha corrida, nos sentamos num banquinho lá na Praça do Porquinho e conversamos por horas. Ele me contou que há muitos anos vai religiosamente ao parque alimentar os bichanos e que nunca mais viajou e nunca mais foi à missa pela manhã. Ele simplesmente não tem coragem de deixar os bichinhos sem comida. Por causa disso disse que já arrumou muita briga, com pessoas que frequentam o parque, que não gostam de gatos e acham errado o que ele faz. Disse que a sua esposa fica chateada por ter de viajar sempre sozinha ou com as filhas, mas ele disse que alimentar esses gatinhos é o seu principal compromisso na vida.

Eu fiquei encantada com suas histórias, com a sua dedicação à gataiada. Depois desse dia passei a ir todos os domingos de manhã ao parque. E nos encontramos algumas vezes. Em seguida, passei uma longa temporada sem ir correr no parque. No final do ano passado voltei a correr na trilha. Alguns dias na semana passo de novo pelo caminho e fico feliz quando vejo, ainda hoje, os potinhos de ração espalhados. Ainda não o reví, mas tenho ido sempre aos domingos de manhã na esperança de reencontrar o meu amigo encantador de gatinhos.




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Olá!

Estou bem ausente daqui, mas prometo voltar em breve!
Estou num projeto em outro blog e não estou conseguindo postar nos dois, mas daqui alguns dias terei mais tempo e volto a postar aqui amigos.

Um grande abraço e um feliz 2012!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Jardim da Minha Avó... ou O Pé de Bife!


Eu devia ter uns 4 ou 5 anos no máximo. Morava na casa dos meus avós e vivia rodeando minha mãe e as minhas tias, ainda moças e que, para mim ao menos, estavam sempre fazendo ou dizendo coisas interessantíssimas.

Era uma casa de madeira com três quartos e um quintal enorme. Nessa casa, no interior do Paraná, havia um belo jardim cultivado com muito carinho pela minha avó. nhamos hortênsias azuis, um pinheirinho de natal enorme e até um pé de café. Tudo que poderia nascer e crescer na terra a minha avó metia ali no jardim, resultando numa verdadeira confusão de árvores, plantas e flores. Mas, por alguma razão, que desconheço, aquilo tudo harmonizava-se e o jardim era realmente muito bonito.

No jardim da minha avó vivi grandes aventuras. Passava a tarde toda entre as flores brincando e conversando com amigos imaginários. Eu gostava muito das margaridas e das roseiras e vivia me espetando nos espinhos.

Além do jardim, minha avó, que ainda hoje tem o costume de plantar um pé de árvore para cada filho, neto ou bisneto que nasce, está sempre às voltas com a sua horta no fundo do quintal. Em sua casa comemos as hortaliças sempre fresquinhas. Até uma plantação de mandioca ela anda cultivando.

Na manhã de um sábado ensolarado acordei e não encontrei ninguém na casa. Passei pela cozinha, apanhei um pãozinho de minuto, recém saído do forno, e comecei a chamar pela minha avó. Logo descobri que as mulheres da casa estavam todas no jardim, aguando as plantas e conversando.

Fiquei por ali ouvindo a conversa enquanto observava a destreza com que minha avó tirava os galhinhos e folhas secas de uma das plantas.

Em seguida minha avó e minha mãe entraram. Provavelmente já estavam preocupadas com os afazeres do almoço. Meu avô e meus tios chegavam por volta das onze horas para almoçar.

Assim que elas entraram, minhas tias começaram a falar sobre as flores: o quanto estavam bonitas e que minha avó tinha uma mão ótima para plantá-las. A conversa girava em torno disso quando a tia Isa falou:

- Eu queria saber como é um pé de pimenta do reino, pois eu nunca vi nenhum!
- E eu – disse a tia Ironí – queria saber como é um pé de cupuaçu.

Querendo entrar na conversa e ao mesmo tempo satisfazer minha curiosidade, saí-me com essa:

- Ah! Eu queria mesmo era saber como é um pé de bife!
- Um pé de bife?!- riram as tias espantadas.
- É! – respondi sem graça.

Então a tia Isa me explicou que não existia um 'pé de bife'. Fiquei intrigada quando ela disse que as carnes que eu via penduradas no açougue do seu Joaquim vinham das vacas.

Pensei em como era que as vacas produziam as carnes. Imaginei que deveria ser algo parecido com a produção do leite. Demorou ainda um bom tempo para eu descobrir toda a cruel verdade.


Fotos: acima a minha avozinha e sua plantação de mandiocas lá no Mato Grosso. No início ela e seu atual jardim recém iniciado.