quarta-feira, 21 de setembro de 2011

"Seu" Pedro, o Padeiro!



Aos quatro anos, como todos sabem, eu morava numa pacata cidadezinha, chamada Francisco Alves, no interior do Paraná com os meus avós e, quando por algum impedimento qualquer minha avó não fazia seus maravilhosos pães, eu tinha a incumbência de atravessar a rua e ir até a esquina comprar pão no bar do "Seu" Pedro.


E lá ia eu, feliz da vida, com a antiga notinha de um cruzeiro, amassada na mão, comprar o pão. O troco podia trazer de bala Sete Belo.

Lá no Bar do "Seu" Pedro tinha ainda: doce de coração (abóbora), maria mole (como recheio entre duas bolachas maria), chocolate de guarda-chuvinha, pirulito do zorro, canudinho de doce de leite, teta de nega, maria mole, doce de banana na casquinha de sorvete e suspiro cor de rosa.




Eu adorava, quando minha avó me chamava na cozinha, me dava o "cruzeiro" e me mandava ir no Neusa Bar.

O "Seu" Pedro era um senhor já bem velhinho, uma figura bastante inusitada. Bem magrinho, fumava sem parar um fedorento cigarro de palha, andava arrastando as sandálias franciscanas e morava no fundo da padaria. Tinha duas filhas, uma delas dava nome ao seu bar/padaria. Além das filhas crocheteiras, o padeiro tinha uma esposa, dona Rosa, e um gato gordo.

Você podia chegar a hora que fosse no bar do "seu" Pedro, que nunca havia ninguém no balcão para lhe atender. Você tinha que chegar, debruçar sobre o balcão, encher o pulmão e...

- Seu Pedrooooooooooooo eu quero uma bengalaaaaaaaa!

Alguns minutos, e outros berros, depois ele aparecia arrastando suas sandálias. Pegava o dinheiro, guardava na gaveta, espantava o gato que ficava dormindo em cima do balcão e depois girava o baleiro. Essa era a melhor parte. Ele girava o baleiro e a gente ficava com o dedo apontando para os compartimentos do baleiro. Quando parava, ele tirava o doce de dentro, de onde tinha parado, e dava de troco. Eu gostava quando parava na teta de nega ou no chocolate de guarda chuvinhas, mas morria de raiva quando parava no suspiro duro cor de rosa.

Passei a infância inteira indo, alguns dias na semana, comprar pão na padaria do velho Pedro. E todos os dias, antes de ir para casa, olhava as roseiras no jardim da dona Rosa, mexia no rabo do gato do "seu" Pedro e comia meu doce antes de chegar em casa.

Anos depois, quando já estava com uns 12 anos, "seu" Pedro foi um dos que me procuraram pela cidade inteira quando sumi. E foi também na frente do "seu" Pedro que tomei a inesquecível surra, no episódio que narro no capítulo Menudomania do livro Meu Avô e Eu.

Pouco depois do meu sumiço e da surra, o "seu" Pedro faleceu. A viúva Dona Rosa e as filhas moraram ainda por um tempo na casinha no fundo da padaria e tentaram tocar o velho bar.

Comentava-se na cidade que, depois de passado o luto, a viúva se enfeitava toda, colocava o melhor vestido, passava rouge e batom e mandava beijos para o Cid Moreira no final do Jornal Nacional. Ficava toda prosa achando que o sonoro "Boa Noite" era para ela. Eu nunca vi a Dona Rosa dando boa noite para o Cid Moreira, mas juro que um dia fui levar alguma coisa na casa dela e a senhora realmente estava toda arrumada na frente da tevê, mas eu mesma nunca vi. São lembranças lindas dos tempos de infância.


O balcão do "seu" Pedro era bem parecido com esse...


E o gato preguiçoso dele era tão folgado quanto esse!


E não é que achei uma foto do famoso Bar do Sr. Pedro?
Foto assumidamente roubada da postagem do José Soares 
no Grupo Francisco Alves do Facebook

4 comentários:

  1. História fantástica e, como sempre, muito bem contada. Ri muito conhecendo os detalhes desses episódios que já tive o prazer de ouvir. Também adorei, ao ler sua história, relembrar as minhas próprias e poder, mesmo que por um ínfimo instante, lançar um olhar infantil sobre esse pedaço da minha própria vida. Muito obrigado!

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  2. Nossa, Dri! Que história deliciosa. Fiquei aqui relembrando quando eu também ia a uma dessas vendinhas junto com os meus primos, comprar doces no "Zé Maria". A gente sempre chorava pedindo moedas para o meu avô para comprar coisas no Zé Maria, que tinha uma venda parecida com essa da foto, porém, dentro da casa dele!
    E como eu gostava dos doces!
    O único que não gostava (e até hj não gosto) é o de abóbora!
    Os que mais gostava eram o suspiro (o branco, pq o rosa é meio amargo, acho q devido ao corante rs), o doce de banana da casquinha e com a colher em forma de pá e o pirulito que vinha com o pozinho rs N gostava tb da Maria Mole hehehe
    Achava nojento shaushuahsuahsuasuas
    Mt bom... Beijo, Dri =*

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  3. como é bom poder ler algo tão gostoso e ainda compartilhar desses detalhes na nossa própria infância...
    Eu gostava dos suspiros, mas o q mais me apetecia nas vendinhas eram o sequilhos, aqueles redondinhos q eram vendidos em saquinhos, desmanchavam na boca... Hj, não posso nem vê-los! rsrs
    bjo grande Adriana

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  4. è lindo lembrar de um passado que traz saudades, e como é diferente nos dias de hoje, eu sinto muita falta da vida muito mais simples e sincera e dos doces rsrs lindo post, adorei o blog, beijos

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